Veneza, dirigido por Miguel Falabella, parte de uma premissa delicada e potencialmente impossível: realizar o último desejo de uma mulher que quer rever o único homem que amou. Mas o filme não trata essa missão como uma jornada convencional. Entre o interior brasileiro, um bordel e a chegada de um circo, a história encontra um caminho de imaginação, afeto e encenação.
Lançado em 2021, o longa combina drama, comédia e romance em uma narrativa que valoriza personagens à margem e a capacidade que eles têm de inventar, juntos, uma realidade mais generosa. É uma obra particularmente curiosa na filmografia de Falabella por trazer para a tela uma peça que ele já conhecia bem dos palcos.
Ficha rápida
Onde assistir Veneza no Brasil
No momento da verificação, os dados consultados não indicavam opção de streaming, aluguel ou compra digital para este título no Brasil.
Disponibilidade para o Brasil verificada em 16/08/2026 11:43. Catálogos podem mudar sem aviso. Dados de disponibilidade: JustWatch, via TMDB.
Sinopse de Veneza, sem spoilers
Gringa é a proprietária de um bordel no interior do Brasil. Cega e com a saúde fragilizada, ela guarda um desejo antigo: viajar a Veneza, na Itália, para reencontrar Giácomo e pedir perdão por tê-lo deixado no passado.
Sem dinheiro para uma travessia tão distante, Rita, Tonho e as mulheres que vivem ao redor de Gringa decidem não abandonar a amiga diante desse sonho. A chegada de uma trupe circense abre espaço para um plano incomum, no qual o cotidiano duro dá lugar a uma aventura feita de improviso, cuidado e ilusão.
Mais interessada na força emocional dessa empreitada do que em qualquer lógica realista, a trama fala de memória, culpa e despedida sem abrir mão de humor e ternura.

Curiosidades e bastidores de Veneza
Uma peça argentina virou filme brasileiro
O roteiro adapta Venecia, peça do dramaturgo argentino Jorge Accame. Antes do longa, Miguel Falabella já havia levado o texto ao teatro brasileiro, em 2003, numa montagem protagonizada por Laura Cardoso. Essa origem teatral permanece visível no filme: as relações entre os personagens, os diálogos e o espaço central da ação importam mais do que grandes deslocamentos ou espetáculo de escala.
Isso não significa que Veneza pareça apenas teatro filmado. A direção usa a proximidade da câmera para acompanhar olhares, hesitações e pequenos gestos, dando à fábula uma intimidade que o palco organiza de outra maneira.
Carmen Maura lidera um encontro de gerações
A espanhola Carmen Maura interpreta Gringa. Figura marcante do cinema de Pedro Almodóvar, a atriz traz à personagem uma presença que alterna fragilidade, autoridade e humor ferino. A escolha também reforça a vocação internacional do projeto, uma coprodução entre Brasil, Espanha e Uruguai.
Ao seu redor, o filme reúne intérpretes brasileiros de registros bastante diferentes. Dira Paes sustenta o lado prático e afetivo da história, enquanto Eduardo Moscovis, Carol Castro, Danielle Winits e André Mattos ajudam a equilibrar o tom popular, a melancolia e o componente circense da narrativa.
O cenário foi tratado como matéria concreta
As filmagens ocorreram ao longo de 28 dias, entre locações no Uruguai e em Veneza, na Itália. O bordel e o universo do circo receberam uma construção visual palpável, em vez de depender exclusivamente de soluções digitais. É uma decisão importante para o filme: a fantasia funciona porque parece ter objetos, tecidos, luzes e imperfeições que os personagens poderiam tocar.
A fotografia de Gustavo Hadba trabalha com uma paleta próxima dos tons sépia, enquanto a direção de arte de Tulé Peake colabora para uma atmosfera de memória encenada. O resultado evoca uma espécie de álbum antigo que ganhou movimento, adequado a uma trama em que o passado nunca está inteiramente encerrado.
Fellini é uma referência perceptível
A presença do circo, a mistura entre tipos populares e poesia visual e o olhar afetuoso para personagens socialmente marginalizados aproximam Veneza de um imaginário felliniano. Filmes como Noites de Cabíria e Amarcord ajudam a situar essa sensibilidade, embora a obra de Falabella preserve sua paisagem brasileira e sua origem teatral.
Em nossa leitura, o realismo fantástico do longa não pede que o público decida o tempo todo o que é plausível. O importante é entender por que a fantasia se torna necessária para aquelas pessoas. A invenção, aqui, não serve para negar a dor; serve para tornar a dor compartilhável.
Elenco e personagens
- Carmen Maura é Gringa, a dona do bordel, cega e profundamente ligada a uma lembrança amorosa que se recusa a desaparecer.
- Dira Paes é Rita, personagem pragmática, de coração generoso, que assume a responsabilidade de ajudar Gringa.
- Eduardo Moscovis é Tonho, peça decisiva na organização do plano que mobiliza a casa.
- Carol Castro é Madalena, jovem que alimenta seu desejo de conhecer o mundo por meio de um atlas.
- Danielle Winits é Jerusa, uma mulher mais amarga e desconfiada das promessas que a vida costuma oferecer.
- André Mattos é Mestre, líder da trupe circense cuja presença amplia a dimensão lúdica da história.
- Caio Manhente é Júlio e Maria Eduarda de Carvalho é Janete, integrantes do conjunto que movimenta o cotidiano do bordel.
O grande acerto do elenco está no espírito coletivo. Ainda que Gringa seja o centro afetivo da narrativa, o filme depende da química entre pessoas que têm conflitos, limitações e modos distintos de demonstrar cuidado.

Outros trabalhos de Miguel Falabella
Veneza conversa com uma trajetória de Miguel Falabella marcada pela circulação entre teatro, televisão e cinema. Entre seus outros trabalhos de direção registrados estão Polaróides Urbanas (2008), seu primeiro longa; Hairspray Brasil (2009); Alô, Dolly! (2013); A Escola do Escândalo (2017); e Querido Mundo (2026).
Essa passagem por formatos e palcos distintos ajuda a entender a segurança de Falabella ao conduzir atores e ao abraçar a teatralidade como linguagem, não como limitação. Em Veneza, a encenação está a serviço de uma história sobre pessoas que constroem uma pequena fantasia para proteger alguém que amam.

Vale a pena assistir a Veneza?
Sim, especialmente para quem busca um filme brasileiro fora da fórmula mais imediata da comédia de situações. Veneza é um drama poético, com humor pontual e uma melancolia constante, que aposta mais na atmosfera e nos vínculos humanos do que em reviravoltas.
Também é uma boa escolha para quem se interessa por adaptações teatrais: o longa preserva a força dos diálogos e do espaço fechado, mas encontra no cinema recursos de luz, textura e enquadramento para transformar a encenação em memória visual. Carmen Maura e Dira Paes são os principais pilares dessa delicadeza, enquanto o restante do elenco faz do plano central da trama algo emocionalmente crível.
Não é um filme de realismo estrito. Sua beleza está justamente em aceitar que, em certos momentos, uma mentira cuidadosamente montada pode expressar uma verdade afetiva maior do que os fatos.
Perguntas frequentes
Qual é a história do filme Veneza?
Veneza acompanha Gringa, dona de um bordel no interior do Brasil, que deseja viajar à cidade italiana para reencontrar um antigo amor. Sem recursos para levá-la até lá, as pessoas ao seu redor criam um plano imaginativo com a ajuda de uma trupe circense.
Veneza é baseado em uma peça de teatro?
Sim. O filme adapta a peça argentina Venecia, de Jorge Accame. Miguel Falabella já havia dirigido uma adaptação brasileira do texto para o teatro antes de realizar o longa.
Quem interpreta Gringa em Veneza?
Gringa é interpretada por Carmen Maura, atriz espanhola conhecida internacionalmente por suas colaborações com o diretor Pedro Almodóvar.
Qual é o gênero de Veneza?
Veneza mistura drama, comédia e romance. Seu tom se aproxima de uma fábula melancólica, com elementos circenses e uma atmosfera de realismo fantástico.
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