Uma teoria criada por fãs sugere que os aparentes erros de continuidade, o uso do ChatGPT e o excesso de referências em American Horror Story 13 podem ser intencionais. E se a temporada estiver mostrando uma realidade criada por inteligência artificial?
ChatGPT na trama, informações aparentemente erradas, personagens que parecem misturar suas próprias histórias e uma quantidade enorme de fanservice levantaram uma teoria curiosa sobre American Horror Story 13: e se tudo estiver acontecendo dentro de uma narrativa criada por inteligência artificial?
Atenção: esta matéria contém spoilers dos primeiros episódios de American Horror Story 13.
Os primeiros episódios de American Horror Story 13 trouxeram de volta personagens, referências e elementos de diferentes momentos da antologia criada por Ryan Murphy e Brad Falchuk. Mas o aguardado reencontro também despertou uma reação curiosa entre parte dos fãs.
Há quem tenha estranhado alguns diálogos, comportamentos aparentemente inconsistentes e referências tão diretas às temporadas anteriores que determinadas cenas parecem quase uma fanfic de American Horror Story.
E talvez esse seja justamente o objetivo.
Uma teoria publicada pelo usuário @ryans.days, no Threads, propõe uma explicação bastante diferente para aquilo que alguns espectadores estão tratando simplesmente como problemas de roteiro: a temporada poderia estar mostrando uma história simulada ou construída por inteligência artificial.
Conforme os episódios avançassem, essa realidade começaria a apresentar cada vez mais erros até que a série finalmente revelasse o que realmente está acontecendo.
Parece absurdo à primeira vista. O problema é que algumas pistas tornam a hipótese surpreendentemente interessante.
ChatGPT já faz parte de American Horror Story 13
O primeiro indício está escancarado diante do espectador: o ChatGPT existe dentro da própria história.
Ben DeSoto utiliza a ferramenta durante sua investigação sobre Mr. Nas, fotografando objetos e recorrendo ao chatbot para tentar entender aquilo que encontra.
Não é apenas uma rápida referência à tecnologia contemporânea. A inteligência artificial passa a participar diretamente da maneira como Ben interpreta os acontecimentos ao seu redor.

E a referência parece ultrapassar a própria narrativa. Na sequência de abertura da temporada, entre a enorme colagem de imagens e referências à história de American Horror Story, também aparece algo semelhante à interface de um chatbot.
Sozinho, isso poderia significar muito pouco. Dentro da teoria, porém, ganha outro significado: e se a série estiver mostrando ao espectador a ferramenta responsável por construir aquela realidade?
Uma resposta errada do ChatGPT pode ser uma pista
Uma das interações de Ben com a inteligência artificial é particularmente curiosa.
Ao perguntar quantas membranas mucosas existem no corpo humano, ele recebe como resposta o número 13.
A informação é conveniente demais para uma temporada completamente obcecada pelo número.
O problema é que não existe uma classificação anatômica amplamente utilizada segundo a qual o corpo humano simplesmente possui “13 membranas mucosas”. As mucosas revestem diferentes cavidades e sistemas do organismo, mas não costumam ser apresentadas dessa maneira.
A cena pode ser apenas uma liberdade dos roteiristas para inserir mais um número 13. Mas existe outra possibilidade.
Modelos de inteligência artificial generativa podem produzir respostas incorretas de forma bastante convincente, fenômeno frequentemente chamado de alucinação de IA.
E se a série estiver fazendo exatamente isso?
Nesse cenário, o ChatGPT daria uma informação falsa a Ben — enquanto a própria realidade começaria a se comportar como se aquela informação fosse verdadeira.
Constance parece misturar personagens de Jessica Lange
Outro detalhe apontado na discussão original envolve Constance Langdon.
Em alguns momentos da nova temporada, a personagem utiliza elementos que parecem pertencer muito mais a outras figuras interpretadas por Jessica Lange dentro de American Horror Story.
Um dos exemplos é o uso do alemão, característica imediatamente associada a Elsa Mars, de Freak Show, e não a Constance. Outros detalhes biográficos mencionados durante os episódios também despertaram comparações com personagens anteriores da atriz.
É aqui que a teoria da inteligência artificial começa a ficar particularmente interessante.

Imagine um modelo alimentado com informações sobre todas as temporadas de American Horror Story.
Ele saberia que Jessica Lange interpretou Constance Langdon, Sister Jude, Fiona Goode e Elsa Mars.
Também saberia dezenas de características sobre cada uma delas.
Mas, conforme precisasse juntar todas essas informações para criar uma nova história, poderia começar a atribuir detalhes da personagem errada à mesma atriz.
A interpretação continuaria correta: Jessica Lange continuaria sendo Jessica Lange. Mas Constance começaria lentamente a absorver características de Elsa, Fiona ou Jude.
É quase como se os dados estivessem sendo misturados.
Há uma explicação alternativa importante
Existe, entretanto, um detalhe que impede essa suposta pista de funcionar como evidência definitiva.
Jessica Lange retorna justamente interpretando várias personagens de American Horror Story.
Portanto, eventuais cruzamentos de características podem fazer parte de algum mecanismo sobrenatural da temporada, sem qualquer relação com inteligência artificial.

Ainda assim, isso não destrói completamente a teoria. Na verdade, permitiria aos roteiristas criar deliberadamente essa sensação de que as identidades estão começando a se contaminar.
AHS 13 parece uma fanfic feita a partir de um prompt
Existe outro ponto levantado por fãs que talvez seja ainda mais interessante: a própria estrutura da temporada.
AHS 13 reúne personagens queridos, vilões históricos, frases famosas e referências às temporadas anteriores em uma velocidade impressionante.
A proposta assumidamente nostálgica explica boa parte disso.
Mas experimente imaginar o seguinte prompt:
“Crie uma nova temporada de American Horror Story reunindo os personagens favoritos dos fãs, conectando as primeiras temporadas e recuperando seus principais bordões.”
O resultado provavelmente teria várias características semelhantes às vistas na tela.
Uma inteligência artificial conseguiria recuperar facilmente os elementos mais reconhecíveis de cada personagem: roupas, acontecimentos famosos, frases, relacionamentos e características básicas.
O problema apareceria nos detalhes. Ela poderia saber quem é Constance, mas não compreender exatamente como Constance falaria naquela situação. Poderia saber que Madison Montgomery possui uma frase extremamente famosa, então tentaria encontrar uma maneira de fazê-la repetir o bordão.
Poderia conhecer dezenas de elementos diferentes do universo de American Horror Story, mas simplesmente reuni-los porque reconhece que são importantes.
É justamente essa superficialidade que alguns espectadores vêm criticando. E se ela for proposital?
Mr. Nas também apresenta uma inconsistência curiosa
A publicação de @ryans.days também chama atenção para a idade de Mr. Nas.
Em determinado momento, Constance afirma que ele tem 87 anos.
Posteriormente, surgem indicações de que sua idade estaria se aproximando dos 90, apesar de aparentemente não ter passado tempo suficiente para isso.
Em qualquer outra produção, provavelmente seria considerado um simples problema de continuidade.
Dentro de uma narrativa envolvendo inteligência artificial, entretanto, funcionaria como outra pequena alucinação.
A história se lembra aproximadamente de quem é o personagem, mas começa a perder determinados detalhes conforme sua quantidade de informações aumenta. Há novamente uma possível explicação narrativa: o tempo envolvendo Mr. Nas parece não funcionar normalmente.
Por isso, a idade também não pode ser utilizada como prova. O interessante é o padrão.
Sozinhos, todos esses detalhes possuem explicações razoáveis. Juntos, começam a parecer estranhos.
Ben pode representar o próprio fã
Existe uma versão ainda mais radical da teoria.
E se Ben for a pessoa que pediu à inteligência artificial para criar aquela história?
Personagens completamente novos ocupando o centro de fanfics famosas são conhecidos como self-inserts: representações do próprio autor inseridas naquele universo. Ben poderia funcionar exatamente dessa forma.
Ele entra em um mundo dominado por personagens clássicos de American Horror Story, sobrevive a acontecimentos improváveis e começa a interagir diretamente com figuras famosas da franquia.

Ao mesmo tempo, utiliza constantemente uma inteligência artificial para entender o universo em que está. Talvez ele não esteja apenas consultando o ChatGPT.
Metaforicamente, poderia estar conversando com aquilo que está criando a realidade ao seu redor.
Isso também tornaria uma das provocações feitas a Ben particularmente interessante: a promessa de que ele descobrirá “quem realmente é”. Pode ser apenas outro mistério envolvendo sua identidade.
Mas, se a teoria estiver correta, a resposta poderia ser muito maior.
A abertura pode representar aquilo que alimentou a IA
A sequência de abertura também merece atenção.
Ela funciona praticamente como um arquivo visual da própria história de American Horror Story, misturando referências, imagens, símbolos e elementos reconhecíveis da franquia.
Naturalmente, isso combina perfeitamente com a proposta comemorativa da temporada.
Mas também existe outra leitura possível.
A abertura poderia simbolizar o banco de informações utilizado para gerar aquela narrativa.
Murder House.
Asylum.
Coven.
Freak Show.
Hotel.
Personagens, acontecimentos, imagens e falas seriam retirados dessas fontes e recombinados para produzir alguma coisa nova.
Nesse caso, o espectador não estaria vendo apenas referências às temporadas antigas.
Estaria vendo os dados de treinamento daquela realidade.
Isso significa que American Horror Story 13 foi escrita pelo ChatGPT?
Não.
Essa distinção é fundamental.
A teoria não apresenta evidências de que os roteiros reais da temporada tenham sido produzidos por inteligência artificial.
A hipótese é muito mais interessante do que isso: os roteiristas poderiam estar deliberadamente criando uma história sobre uma realidade gerada por IA.
Os aparentes defeitos seriam, portanto, parte da narrativa. Isso também significa que praticamente todas as pistas mencionadas aqui podem ter explicações completamente diferentes.
As referências podem existir simplesmente porque esta é uma temporada nostálgica. Os personagens podem estar misturando características por razões sobrenaturais. A idade de Mr. Nas pode envolver alterações temporais.
E o ChatGPT pode ter sido incluído apenas como uma ferramenta utilizada por Ben.
Por enquanto, a teoria continua sendo apenas isso: uma teoria criada por fãs.
Mas os próximos erros podem ser as maiores pistas
O que torna a hipótese tão interessante é justamente aquilo que será possível observar nos próximos episódios.
Se novos problemas de continuidade começarem a surgir, a teoria ganhará força.
Principalmente se personagens passarem a apresentar memórias que pertencem a outras pessoas, informações falsas fornecidas pela inteligência artificial começarem a se transformar em realidade ou acontecimentos anteriores forem discretamente modificados.
Existe algo muito apropriado nessa possibilidade.

Uma IA poderia conhecer perfeitamente a superfície de American Horror Story: Jessica Lange, Coven, Murder House, serial killers, fantasmas, demônios, bruxas, frases famosas e personagens queridos.
Mas talvez começasse a cometer erros ao tentar compreender profundamente tudo aquilo ao mesmo tempo. Ela sabe que Jessica Lange interpretou Constance e Elsa. Só não consegue mais lembrar exatamente qual delas falava alemão.
Ela sabe que determinada frase pertence a Madison. Então simplesmente faz Madison repeti-la. Ela sabe que o número 13 precisa ser importante.
Então começa a encontrá-lo em todos os lugares.
Nesse cenário, aquilo que parte do público está chamando de roteiro ruim poderia esconder justamente o maior truque da temporada.
Talvez os personagens de American Horror Story 13 não pareçam exatamente as pessoas de quem nos lembramos porque eles realmente não são essas pessoas. São reproduções.
E talvez o verdadeiro mistério da temporada não seja descobrir apenas quem — ou o que — é Mr. Nas.
Pode ser descobrir quem está escrevendo a história que estamos assistindo.
Crédito da teoria
A hipótese analisada nesta matéria foi inspirada por uma publicação do usuário @ryans.days, no Threads, que observou a presença do ChatGPT na temporada e levantou a possibilidade de que os aparentes erros de roteiro possam fazer parte de uma narrativa propositalmente simulada por inteligência artificial.
