Supergirl é um filme muito divertido, mas não daquele jeito automático de aventura espacial cheia de barulho, pancadaria e frases de efeito. Ele funciona melhor quando entende que, por trás da grandiosidade dos poderes, dos planetas estranhos e da bagunça visual de um universo cheio de alienígenas, existe uma personagem que só está tentando descobrir onde cabe. Leia a crítica completa.
A proposta do filme parece simples, acompanhar Kara Zor-El (Milly Alcock) em uma caçada violenta por vingança e sobrevivência, mas o que realmente sustenta a história é essa ideia de pertencimento afetivo, de ter alguém para chamar de lar e, principalmente, de tentar aproveitar a vida mesmo quando se está perdido dentro dela.
A trama começa em um momento bem amargo para Kara. Aos 21 anos, ela não está exatamente comemorando a vida, mas encarando o peso de uma existência que parece sempre comparada à de outra pessoa. Viver na Terra sob a sombra do primo famoso, o Superman, transformou sua presença em algo menor do que ela gostaria, como se toda a potência que carrega nunca fosse suficiente para fazê-la se sentir realmente especial.
E esse é um ponto interessante do filme, porque ele não apresenta Kara apenas como uma heroína rebelde porque sim, mas como uma jovem adulta cheia de força, de raiva, de confusão e de vontade de experimentar o mundo antes de entender o próprio lugar nele.

Por isso, sua fuga para o espaço faz sentido dentro desse estado emocional. Kara não parte em uma missão nobre, não sai em busca de salvar uma civilização e também não está tentando provar nada para ninguém naquele primeiro momento. Ela só quer escapar. Ao lado de Krypto, seu supercão, que é uma das presenças mais fofas e certeiras do filme, ela vai parar em um planeta distante, poeirento e banhado por um sol vermelho. Esse detalhe é muito importante, porque o sol vermelho retira seus poderes e permite que ela experimente algo que, para alguém como ela, talvez seja quase uma forma de liberdade: ficar vulnerável, sentir o corpo de outro jeito, beber, se entorpecer, se perder um pouco e esquecer, mesmo que por pouco tempo, tudo o que pesa ao redor.
É nesse cenário de taberna alienígena, com clima sujo, estranho e meio decadente, que o filme começa a mostrar melhor sua personalidade. A Supergirl que aparece ali não é a figura perfeita e inspiradora que se espera de um símbolo heroico tradicional. Ela é uma jovem tentando se deglutir pela própria embriaguez, querendo sentir a vida no limite, como se cada excesso pudesse preencher uma ausência. Essa escolha dá ao filme um tom mais dark em comparação com outras histórias de super-herói, mas sem tirar dele o humor sarcástico e a energia meio caótica que ajudam a tornar tudo mais gostoso de acompanhar.
A chegada de Ruthie Marye Knolle (Eve Ridley) muda o rumo da história. A jovem alienígena procura alguém que aceite ser contratado para matar Krem das Colinas Amarelas (Matthias Schoenaerts), o mercenário que assassinou seu pai. A princípio, Kara recusa o pedido, dizendo que não é uma heroína de aluguel, e essa recusa combina com o momento da personagem, porque ela não está ali para vestir uma capa moral ou assumir uma missão de justiça. Ela está cansada, amarga e distante de qualquer ideal heroico. Só que o filme rapidamente empurra Kara para dentro do conflito quando o próprio Krem aparece no vilarejo, ataca Krypto com uma flecha envenenada e rouba a nave dela, deixando o animal à beira da morte.

A partir daí, a caçada começa de verdade. Sem nave, com Krypto gravemente ferido e sem muitas alternativas, Kara precisa se aliar a Ruthie para atravessar aquele planeta hostil atrás do vilão, do antídoto e da possibilidade de recuperar o que lhe foi tirado. É uma estrutura simples, quase clássica, mas que funciona porque está emocionalmente ligada à personagem. Kara não parte apenas para ajudar uma garota em busca de vingança, ela parte porque também foi atingida, porque Krypto é seu vínculo mais direto com afeto, companhia e lar. Quando ele é ferido, a história deixa de ser apenas a missão de Ruthie e passa a ser também uma reação muito íntima de Kara diante de uma maldade gratuita.
Milly Alcock conduz tudo isso com muita segurança. Sua Supergirl tem uma jornada que, em alguns momentos, parece meio atropelada, especialmente porque o filme precisa equilibrar muita coisa ao mesmo tempo, a apresentação de um universo espacial robusto, a dor interna da protagonista, a relação com Ruthie, a ameaça de Krem e a presença de figuras como Lobo. Ainda assim, Milly consegue segurar muito bem as cenas emocionais e também se sai muito bem nas passagens mais humoradas. Ela tem uma presença que mistura cansaço, ironia e vulnerabilidade, e isso ajuda a construir uma Kara mais humana, mesmo quando o filme está cercado de elementos fantásticos.

O ponto mais frágil entre os personagens acaba sendo Ruthie. A personagem tem uma função importante na narrativa, porque é ela quem coloca a história em movimento e espelha o desejo de vingança que depois também atravessa Kara, mas a impressão que fica é que a coadjuvante poderia ter sido melhor ajustada. A menina parece madura demais para a idade e emocionalmente preparada rápido demais para uma vingança tão repentina, o que enfraquece um pouco a naturalidade da relação entre ela e Kara. Não é que a ideia da personagem não funcione, mas existe ali uma sensação de que uma atriz mais velha, ou uma construção menos apressada, talvez desse mais peso ao trauma e ao vínculo que o filme tenta criar.
Já Jason Momoa como Lobo é um dos grandes acertos. Ele entra no tom sarcástico do filme com uma facilidade enorme, como se tivesse entendido exatamente qual era a brincadeira e decidido se divertir com ela sem medo. Todas as interações dele combinam com essa energia mais debochada, violenta e exagerada da narrativa, e há uma entrega tão solta que dá a impressão de que ele se saiu ainda melhor aqui do que em outros papéis heroicos e grandiosos que já viveu. O Lobo funciona porque não tenta ser polido, não tenta suavizar sua presença e não parece deslocado naquele universo, pelo contrário, ele parece ter nascido daquela mistura de poeira, pancadaria, tecnologia estranha e humor ácido.

Na direção, Craig Gillespie organiza o filme com um olhar muito atento aos estados emocionais de Kara. As cenas são bastante focadas em closes, em detalhes do rosto, em pequenas reações e em momentos que mostram a personagem menos como uma figura inalcançável e mais como alguém tentando se entender. Isso dá ao filme uma textura interessante, porque mesmo quando o universo ao redor é grande, sujo e cheio de informação visual, a câmera parece interessada em lembrar que a história ainda pertence a Kara. É a bagunça externa refletindo a bagunça interna, e essa relação ajuda muito a dar coerência à proposta.
A estrutura com flashbacks também funciona bem. O roteiro de Ana Nogueira, baseado nos quadrinhos de Tom King, intercala esses retornos em momentos importantes da jornada, encontrando tons emocionais que ajudam a amarrar melhor o passado e o presente da protagonista. Esses flashbacks não aparecem apenas como explicação, mas como ecos de uma dor que ainda acompanha Kara. Eles ajudam a entender por que ela se sente deslocada, por que sua rebeldia não é só pose e por que essa busca por lugar, afeto e poder é mais complicada do que simplesmente vestir um uniforme e sair salvando o dia.
Visualmente, o filme se destaca menos por uma fotografia isoladamente bonita e mais pela maneira como usa seus sóis, seus espaços e sua cenografia para traduzir a experiência da personagem. O sol vermelho, que tira os poderes de Kara, cria uma luz quente, mais emocional, humana e carnal, aproximando a personagem de uma fragilidade que ela raramente pode experimentar. É nesse ambiente que ela consegue ficar bêbada, esquecer das coisas ao redor e tocar uma dimensão mais instintiva de si mesma. O sol amarelo, por outro lado, devolve a ela seus poderes e funciona quase como cura, como reconexão com aquilo que ela é. Já o sol verde, ligado ao envenenamento, introduz uma camada de ameaça física e simbólica, como se cada tipo de luz revelasse uma versão diferente da Supergirl.
Mas o que mais chama atenção é a complexidade da cenografia. O universo do filme é robusto, cheio de elementos visuais, tecnologia, lixo espacial, criaturas, humanoides, maquiagem, efeitos práticos e uma sensação de mundo vivido. Existe uma bagunça muito própria nessa ambientação, e ela combina demais com o estado emocional de Kara. Nada parece limpo demais, nada parece perfeitamente organizado, e isso ajuda a tirar o filme daquela aparência excessivamente controlada que algumas aventuras espaciais acabam tendo. Há referências que lembram inspirações como Star Wars e até outras obras associadas ao imaginário de James Gunn, principalmente nessa convivência entre alienígenas estranhos, humor torto, sujeira visual e um tipo de afeto que nasce no meio do caos.

Os temas do filme aparecem de forma clara, mas sem transformar tudo em discurso óbvio. SUPERGIRL fala sobre sobrevivência, sobre encontrar o próprio espaço e sobre entender que poder também depende do lugar onde se está. Essa é uma leitura muito interessante, porque o filme não reduz Kara a uma ideia simples de empoderamento automático. Ele não fica apenas no “girl power” como slogan, mas trabalha uma noção de força ligada ao ambiente, ao afeto e à forma como a personagem se reconhece ou não em cada mundo que atravessa. Em um lugar, ela é invencível. Em outro, ela é vulnerável. Em outro, ela é envenenada. E talvez seja justamente essa variação que torna sua jornada mais humana.
A vingança também é uma camada importante, embora seja a parte menos original da narrativa. Ruthie quer se vingar pela família, Kara quer se vingar de Krem por ter atacado Krypto com pura maldade, e esse espelhamento aproxima as duas personagens. O problema é que esse caminho da vingança soa um pouco padrão e, em alguns momentos, repetitivo. Ainda assim, o filme consegue ir além disso quando coloca a raiva de Kara em contato com algo mais afetivo. A questão não é apenas punir o vilão, mas recuperar um vínculo, proteger quem importa e entender que laços também definem quem ela é.
É por isso que o filme conversa bem com um público que, de alguma forma, também está em busca de pertencimento afetivo. A história fala diretamente com quem tenta se sentir especial, com quem procura um lugar onde sua presença faça sentido e com quem entende que, às vezes, a ideia de lar não está em um planeta, em uma cidade ou em um nome famoso, mas nas relações que conseguimos manter. Kara pode atravessar planetas, beber em uma taberna alienígena, brigar com mercenários e lidar com sóis que mudam sua própria natureza, mas o que move tudo é algo muito simples: ela precisa encontrar um lugar onde possa existir sem ser apenas a sombra de alguém.
SUPERGIRL é um filme que acerta bastante dentro daquilo que tenta ser. A história poderia seguir caminhos mais ousados em alguns pontos, especialmente ao lidar com Ruthie e com a engrenagem da vingança, que às vezes parece um recurso fácil para impulsionar a ação. Mas a principal linha emocional se sustenta bem, principalmente porque Milly Alcock entende a personagem e porque o filme encontra uma boa mistura entre aventura espacial, humor sarcástico, melancolia e caos visual. É uma obra sobre aproveitar a vida, mas também sobre perceber que ninguém aproveita a vida de verdade quando está completamente sozinho.
O resultado é uma aventura que diverte, emociona em alguns momentos e ainda deixa uma sensação de que essa Supergirl pode marcar bem sua geração. Ela não chega pronta, não chega perfeita e nem parece interessada em ser um símbolo impecável. Ela chega confusa, bêbada, ferida, irônica, poderosa quando pode ser e frágil quando o mundo exige. E talvez seja exatamente aí que o filme encontra sua graça. SUPERGIRL abre caminho para novas possibilidades nesse universo ligado ao Superman, mas, antes disso, constrói uma protagonista que não quer apenas salvar o mundo. Ela quer descobrir onde o mundo também pode salvá-la um pouco.
Supergirl estreia nos cinemas no dia 25 de junho.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Warner Bros Pictures e Espaço Z.

