Backrooms tinha nas mãos um dos conceitos mais interessantes do terror recente. A ideia de um espaço infinito, surreal e sem explicação clara sempre funcionou justamente por causar desconforto através do desconhecido. Leia o review completo.
Durante boa parte do filme, especialmente até o segundo ato, essa proposta funciona muito bem. A ambientação cria uma sensação de angústia e tensão, enquanto a curiosidade sobre aquele universo mantém o espectador envolvido.
O problema surge quando o filme parece não saber exatamente qual história quer contar. Em vez de abraçar totalmente o aspecto surreal dos Backrooms, a narrativa tenta transformar essa experiência em uma reflexão psicológica sobre trauma, solidão e questões emocionais dos personagens. Em teoria, isso poderia funcionar, mas o problema é que esses temas nunca recebem o aprofundamento necessário para sustentar o peso que o roteiro tenta dar a eles.
Como resultado, surge uma sensação de conflito entre duas propostas diferentes. Em vários momentos, fica difícil entender se Backrooms quer ser uma experiência perturbadora baseada no absurdo e no desconhecido ou uma narrativa psicológica sobre seus personagens. Como nenhuma dessas abordagens é explorada em sua totalidade, o filme acaba parecendo preso entre duas ideias que nunca chegam a se completar.
Essa falta de aprofundamento também acaba afetando os personagens, que raramente recebem o desenvolvimento necessário para sustentar os temas que o filme tenta abordar. A principal tentativa do filme de explorar essas questões acontece através de Mary (Renate Reinsve), personagem que recebe diversos flashbacks de infância que sugerem temas relacionados ao isolamento e a possíveis traumas. O problema é que essas informações raramente evoluem para algo mais profundo dentro da história.
Os flashbacks existem, mas acabam funcionando mais como uma explicação superficial do que como parte de uma construção emocional real. O filme apresenta essas ideias, mas não parece interessado em desenvolvê-las ao longo da narrativa. Como consequência, os conflitos internos dos personagens acabam soando rasos, dificultando uma conexão mais forte com a jornada que está sendo proposta. A impressão que fica é a de acompanhar várias ideias interessantes sendo apresentadas sem que nenhuma delas seja realmente desenvolvida.
Mas se tem algo que Backrooms acerta do começo ao fim, é sua parte técnica. Mesmo quando o roteiro parece perdido entre diferentes ideias, o filme nunca deixa de ser uma experiência visual e sensorial extremamente bem construída. Design de som, fotografia, montagem, trilha sonora e design de produção trabalham juntos para criar uma sensação de desconforto que acompanha praticamente toda a experiência.

Grande parte da angústia causada pelo filme nasce justamente dessas escolhas. O design de som utiliza ruídos repetitivos e sons desconfortáveis para criar uma sensação permanente de ansiedade, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer a qualquer momento. A trilha sonora complementa esse sentimento sem exageros, enquanto a movimentação da câmera sabe exatamente quando gerar inquietação e quando apenas deixar o espectador observando aquele ambiente estranho.
Os enquadramentos também merecem destaque. Muitas vezes os personagens aparecem centralizados na imagem enquanto os espaços ao redor parecem enormes e vazios, reforçando a sensação de isolamento que define os Backrooms. É um visual que contribui diretamente para o desconforto da experiência e ajuda a transformar os cenários em algo quase tão importante quanto os próprios personagens.
O design de produção também impressiona. Os ambientes conseguem capturar muito bem a estranheza e a sensação de vazio que tornaram os Backrooms tão populares na internet. Existe um cuidado evidente em fazer aqueles espaços parecerem familiares e perturbadores ao mesmo tempo.
Mas, provavelmente, o aspecto técnico mais interessante esteja na montagem. Em vários momentos, o filme parece dividido em blocos. Uma cena extremamente tensa acontece, a tela corta para o preto e, de repente, somos levados para uma situação completamente diferente. Aos poucos, a narrativa encontra uma forma de retornar ao que estava acontecendo anteriormente. Esse recurso cria uma sensação de inquietação e funciona muito bem para manter a tensão viva durante boa parte da experiência.
Talvez o aspecto mais frustrante de Backrooms seja justamente perceber o quanto o filme acerta em algumas áreas e tropeça em outras. Ao tentar transformar esse universo surreal em uma reflexão sobre trauma, isolamento e questões emocionais, o filme acaba se afastando daquilo que torna os Backrooms tão interessantes. A ideia não é ruim, mas o desenvolvimento nunca acompanha a ambição da proposta.
Ainda assim, é uma obra que vale a atenção de quem gosta de observar os aspectos técnicos do cinema. Existe muito para admirar na forma como Backrooms constrói tensão através da imagem e do som. É só uma pena que o roteiro não acompanhe a qualidade de sua execução técnica.
Review escrito por Isabelly Ferreira Cardoso – sob a supervisão de Robson Netto.



