One Piece: O Filme é uma aventura pequena, simples e bastante direta, especialmente quando comparada ao tamanho que a franquia alcançaria nas décadas seguintes, mas talvez seja justamente essa simplicidade que torne tão curioso assistir ao primeiro longa da série tantos anos depois.
Com aproximadamente 50 minutos, o filme não tenta transformar a história em um grande evento, nem ampliar exageradamente aquele universo, preferindo entregar uma caça ao tesouro com humor, ação e o espírito dos primeiros episódios do anime, funcionando quase como um retrato de One Piece quando tudo ainda estava começando.
Lançado originalmente no Japão em março de 2000, poucos meses após a estreia televisiva do anime, o filme acompanha Luffy, Zoro, Nami e Usopp em uma busca ligada à lenda de Woonan, um pirata que teria acumulado cerca de um terço de todo o ouro existente no mundo antes de desaparecer. Como toda boa história envolvendo piratas e uma quantidade absurda de dinheiro, obviamente alguém decide procurar essa fortuna, e esse alguém é Eldoraggo, um vilão movido justamente pela obsessão de encontrar o lendário tesouro.
Os Chapéus de Palha acabam entrando no meio dessa história enquanto a tripulação se separa e diferentes personagens chegam à ilha por caminhos diferentes. Nami, naturalmente, enxerga oportunidades envolvendo dinheiro, Usopp precisa sobreviver recorrendo às próprias mentiras e improvisações, enquanto Luffy e Zoro acabam envolvidos com Tobio e seu avô Ganzo.

É interessante perceber como os quatro protagonistas aparecem praticamente em estado puro. Luffy é movido pela curiosidade e pela empolgação diante de qualquer grande aventura, Zoro funciona como a força do grupo e também como contraponto mais pragmático, Nami mantém sua relação quase religiosa com dinheiro e tesouros, enquanto Usopp consegue transformar aquilo que normalmente seria considerado seu maior defeito em ferramenta para sobreviver. Quando precisa enfrentar Eldoraggo, por exemplo, sua capacidade de inventar histórias acaba sendo novamente sua maior arma.
O filme ainda encontra espaço para uma das situações mais divertidas da aventura ao deixar Luffy e Zoro presos um ao outro durante parte da jornada, utilizando essa limitação física tanto para construir cenas de ação quanto para explorar o humor entre os personagens. É uma ideia simples, mas que combina perfeitamente com aquele One Piece inicial, no qual boa parte da graça estava justamente em colocar personalidades completamente diferentes dentro da mesma situação absurda e observar o caos acontecendo.
Mesmo assim, o verdadeiro arco emocional da história não pertence à tripulação, mas a Tobio, Ganzo e Woonan. Aos poucos, a ilha deixa de representar apenas o lugar onde supostamente existe uma montanha de ouro e passa a funcionar como espaço de memória, amizade e arrependimento.
É justamente aí que a história encontra sua melhor ideia. Tudo parece caminhar para um confronto previsível contra Eldoraggo e para a descoberta do gigantesco tesouro de Woonan, até que o filme revela que aquele ouro simplesmente não existe mais. Antes de morrer, Woonan percebeu que acumular aquela riqueza não havia lhe trazido felicidade e decidiu devolver aquilo que havia conseguido durante sua vida.

Uma aventura que começa perguntando onde está o tesouro termina, então, perguntando o que realmente pode ser considerado um tesouro.
A reflexão é simples, mas funciona especialmente bem dentro de One Piece. Eldoraggo representa a cobiça de forma bastante direta, acreditando que possuir aquela fortuna seria sua realização definitiva, enquanto Woonan viveu o suficiente para perceber exatamente o contrário. Ao mesmo tempo, Luffy também possui um sonho gigantesco, tornar-se Rei dos Piratas, mas sua ambição nunca aparece fundamentalmente ligada ao acúmulo de riqueza.
Existe uma diferença importante entre desejar possuir algo e encontrar sentido na própria busca, e o filme consegue apresentar isso sem transformar uma aventura de menos de uma hora em algo excessivamente filosófico. Ganzo complementa essa ideia pela memória e pela reconciliação, mostrando que aquilo que Woonan realmente deixou para trás vale muito mais do que a fortuna que o transformou em lenda. Ainda sobra espaço para a ótima ironia de Nami terminar levando riquezas de Eldoraggo, porque One Piece pode criticar a obsessão pelo ouro, mas jamais perderia uma boa oportunidade de fazer uma piada com a relação da personagem com dinheiro.
Naturalmente, a sua curta duração também cobram seu preço. Eldoraggo é um antagonista bastante simples, o passado de Woonan poderia receber maior desenvolvimento e as batalhas terminam rapidamente. Em determinados momentos, realmente existe a impressão de estar assistindo a um episódio prolongado do anime, principalmente porque a história precisa apresentar conflito, novos personagens, passado, ação e conclusão dentro de pouco tempo.
Ainda assim, esse ritmo acelerado também impede que a aventura fique cansativa. A direção de Junji Shimizu aposta justamente nessa clareza, com humor físico, bastante movimento e ambientes imediatamente compreensíveis, passando pelo mar, restaurante flutuante, ilha, cavernas e esconderijos sem transformar os cenários em grandes espetáculos visuais. O objetivo está muito mais no deslocamento dos personagens e nas relações construídas durante esse percurso.
Visualmente, existe ainda um valor histórico particularmente interessante. One Piece: O Filme permanece como o único longa da franquia realizado integralmente com animação tradicional em células, preservando aquela aparência característica dos animes televisivos do final dos anos 1990, com cores chapadas, contornos marcados e uma textura muito específica que desapareceria conforme a produção migrasse para processos digitais.
A música de Kōhei Tanaka também ajuda a reforçar essa sensação de reencontro com o começo da série, especialmente com “We Are!” na abertura e “Memories” no encerramento.
Essa dimensão histórica se torna ainda mais interessante em 2026, quando o filme chega pela primeira vez aos cinemas brasileiros em versão dublada em português.
A dublagem brasileira também merece destaque, principalmente porque consegue aproveitar muito bem o humor do filme e encaixar piadas que funcionam com naturalidade em português, sem parecer que estão ali apenas para adaptar o texto original. Carol Valença, Glauco Marques, Tati Keplmair e Adrian Tatini mantêm a personalidade de Luffy, Zoro, Nami e Usopp de forma muito eficiente, e o resultado reforça algo que a versão brasileira de One Piece já vem provando há algum tempo: o elenco de voz funciona muito bem junto. As interações têm ritmo, as piadas chegam com timing e a dinâmica entre os personagens ajuda bastante a deixar a aventura ainda mais divertida, especialmente nos momentos em que o filme abraça de vez seu lado mais bobo e cartunesco.

Mais de 25 anos depois, assistir ao primeiro filme de One Piece também significa olhar para uma franquia antes de seu gigantismo. O longa é limitado, previsível em vários momentos e claramente mais próximo de um episódio especial do que das grandes produções cinematográficas que surgiriam posteriormente, mas dentro de sua proposta funciona muito bem.
Ele já possui a química entre os personagens, o humor absurdo, os golpes exagerados, a aventura e, principalmente, aquela capacidade de esconder uma ideia emocional bastante sincera dentro de uma história aparentemente simples.
O primeiro filme talvez ainda não tivesse a grandiosidade que One Piece conquistaria ao longo das décadas, mas já possuía algo muito mais importante: seu coração. Woonan passou a vida procurando realização através do maior tesouro que poderia acumular e descobriu que aquilo não era suficiente. Luffy segue na direção oposta, perseguindo algo aparentemente inalcançável enquanto encontra valor continuamente nas pessoas, nas aventuras e no próprio caminho. One Piece passaria décadas contando histórias sobre tesouros sem jamais ser, de verdade, uma história sobre riqueza.
One Piece: O Filme estreia nos cinemas brasileiros na versão dublada no dia 17 de setembro.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Paris Filmes e Espaço Z.
