Benedito Ruy Barbosa e o país escondido nas novelas

Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos e deixa legado marcado por Pantanal, Renascer, O Rei do Gado e Terra Nostra.

Benedito Ruy Barbosa, autor de algumas das novelas mais marcantes da televisão brasileira, morreu na manhã desta terça-feira, 7 de julho de 2026, aos 95 anos, em São Paulo. Ele estava internado no Hospital do Coração, o HCor, e faleceu em decorrência de complicações de uma insuficiência renal crônica.

A sua partida encerra a trajetória de um escritor que ajudou a transformar o interior do Brasil em protagonista da teledramaturgia. Em vez de concentrar suas histórias nos grandes centros urbanos, Benedito construiu uma obra ligada à terra, à poeira, ao café, ao cacau, ao boi, ao barro, à natureza e às disputas familiares que atravessam gerações.

Sua dramaturgia ficou marcada por longos diálogos, silêncios, personagens que respeitam o tempo da paisagem e um forte olhar para temas sociais e políticos. Coronéis, peões, imigrantes, mascates, violeiros, patriarcas e figuras místicas formaram um repertório narrativo reconhecível, sempre ligado ao chamado Brasil profundo.

Entre suas obras mais conhecidas estão Pantanal, Renascer, O Rei do Gado, Terra Nostra e Os Imigrantes. Nos últimos anos, parte desse legado voltou ao centro da televisão por meio de novas versões adaptadas por seu neto, Bruno Luperi, como Pantanal, em 2022, e Renascer, em 2024.

A força das sagas rurais de Benedito Ruy Barbosa

A obra de Benedito Ruy Barbosa não forma um universo narrativo literal, com personagens transitando entre novelas diferentes. Ainda assim, suas tramas compartilham um mesmo território simbólico. Elas parecem existir dentro de um mesmo universo cultural, marcado por ciclos econômicos, conflitos de terra, heranças familiares, fé popular, misticismo e disputas entre tradição e mudança.

Renascer, exibida originalmente em 1993, se conecta ao ciclo do cacau e ao imaginário do sul da Bahia. Os Imigrantes, Terra Nostra e Esperança abordam o ciclo do café, a imigração e a transformação do trabalho no Brasil. Pantanal, O Rei do Gado e Paraíso mergulham no ciclo do boi, no Centro-Oeste e no interior paulista.

A repetição de certos arquétipos também ajuda a formar essa identidade. O coronel autoritário, o peão que filosofa sobre a vida, o mascate libanês, o patriarca que construiu um império do nada, o sábio místico e os elementos de realismo fantástico aparecem como marcas recorrentes. O diabo na garrafa, por exemplo, surge em Renascer e Paraíso, reforçando a ligação entre crença popular, medo e destino.

Renascer e o cacau como tragédia familiar

Renascer foi um dos maiores sucessos de Benedito Ruy Barbosa na Globo. A novela de 1993 alcançou médias que batiam 60 pontos e marcou a estreia do autor no horário nobre da emissora. Ambientada no sul da Bahia, a trama nasceu da mística do coronelismo nordestino, do ciclo do cacau e do folclore ligado ao pacto com o diabo.

elenco da novela renascer benedito ruy barbosa
Divulgação.

A abertura da história sintetiza o tom épico da novela. O jovem José Inocêncio finca seu facão aos pés do Jequitibá-Rei e liga sua própria vida à árvore, criando uma imagem de destino, poder e superstição. A frase “Enquanto o meu facão estiver encravado aos teus pés, nem eu nem você haveremos de morrer” se tornou um dos momentos mais lembrados da obra.

A novela também trouxe questões sociais para o centro da dramaturgia. A praga da vassoura-de-bruxa, que devastou o cacau, foi incorporada à narrativa. A personagem Buba também quebrou tabus na versão original, em 1993, e foi atualizada no remake de 2024 como uma mulher trans.

Nos bastidores, Renascer teve momentos difíceis. Benedito enfrentou uma forte úlcera de estresse e escreveu a reta final da novela deitado em uma cama de hospital. A recepção inicial da personagem Mariana também foi pesada, a ponto de afetar profundamente Adriana Esteves naquele período.

O Rei do Gado e a política na sala de estar

O Rei do Gado, exibida em 1996, levou a disputa pela terra para o centro da televisão brasileira. Com média de 52 pontos, a novela atravessou a fronteira do entretenimento e chegou ao debate político nacional.

A trama partia de uma estrutura inspirada em Romeu e Julieta, com famílias rivais, os Mezenga e os Berdinazzi, em uma disputa marcada por passado, orgulho, herança e ressentimento. Esse conflito familiar foi inserido no contexto do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que ganhava força nos anos 1990.

A novela colocou temas como reforma agrária, concentração de terra e função social da propriedade nas conversas do público. A repercussão chegou ao Senado Federal, enquanto a trilha sonora, com nomes como Almir Sater e Sérgio Reis, alcançou grande popularidade.

A primeira fase, com sete capítulos ambientados nos anos 1940, mostrou a decadência dos barões do café e foi gravada com película e estética de cinema. O acerto de contas final entre Bruno Mezenga e Geremias Berdinazzi, no cafezal, fechou a rivalidade com um abraço carregado por décadas de ódio familiar.

Pantanal e a virada estética da televisão

Pantanal, exibida em 1990 pela Rede Manchete, foi um marco na televisão brasileira. Mesmo com médias inferiores às grandes novelas da Globo, em torno de 22 a 30 pontos e picos de 40, seu peso histórico foi enorme. A produção bateu a novela das 20h da Globo, Rainha da Sucata, e forçou mudanças na estratégia de grade da emissora.

pantanal 1990 benedito ruy barbosa novela
Divulgação.

A inspiração veio do deslumbramento de Benedito Ruy Barbosa com o bioma pantaneiro e com as lendas ouvidas de peões da região. A natureza não era apenas cenário. Ela conduzia o ritmo, os conflitos e o imaginário da trama.

Antes de chegar à Manchete, o projeto foi oferecido à Globo, que rejeitou a ideia por considerar logisticamente inviável gravar no Pantanal durante o período das cheias. Benedito levou os roteiros para a Manchete e criou um dos fenômenos mais lembrados da teledramaturgia brasileira.

A imagem de Juma Marruá, vivida por Cristiana Oliveira na versão original e por Alanis Guillen no remake de 2022, tornou-se um símbolo da novela. A personagem engatilhando a espingarda e assumindo traços de onça-pintada para defender suas terras resume a mistura entre realismo, mito e natureza que marcou a obra.

Terra Nostra e o Brasil dos imigrantes

Terra Nostra, de 1999, levou a imigração italiana para o centro da televisão. A novela abordou o processo de chegada de italianos ao Brasil no fim do século XIX, após a abolição da escravatura, e também dialogou com memórias de infância do autor em São Paulo.

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Divulgação.

A produção teve grande repercussão internacional, com destaque para a Itália, a Rússia e países da Europa Oriental. No Brasil, nomes como Matteo e Giuliana ganharam força nos cartórios no ano 2000, reflexo direto da popularidade da trama.

O primeiro capítulo recriou a travessia do Atlântico com navios reais e centenas de figurantes. Muitos deles eram descendentes de italianos e se emocionaram ao encenar a dor migratória de seus antepassados. O primeiro olhar entre Giuliana e Matteo, no convés do navio, embalado por Tormento D’Amore, ficou como uma das imagens centrais da novela.

Outras fases do autor na televisão

A obra de Benedito Ruy Barbosa também passou por produções ligadas ao eixo histórico e abolicionista. Sinhá Moça, exibida em 1986 e refeita em 2006, foi baseada no romance de Maria Alice Barreto e ambientada às vésperas da Lei Áurea. A trama apresentava a filha de um Barão escravocrata que se apaixona por um jovem republicano e abolicionista.

A novela foi exportada para mais de 60 países e teve grande impacto em lugares como China e Cuba. Ao mesmo tempo, a obra também permite leituras críticas atuais sobre a forma como a teledramaturgia romantizou a resistência escrava, entregando o protagonismo da abolição a personagens brancos.

Cabocla, exibida originalmente em 1979 e refeita em 2004, adaptou Ribeiro Couto e reforçou uma oposição recorrente na dramaturgia de Benedito: a cidade grande como espaço de doença física e moral, e o interior como lugar de cura. Na trama, Luís Jerônimo deixa o Rio de Janeiro após descobrir que está com tuberculose e vai se recuperar no interior do Espírito Santo, onde conhece Zuca.

Meu Pedacinho de Chão e Velho Chico mostraram outro ponto da trajetória do autor. Em 2014, o remake de Meu Pedacinho de Chão transformou a novela de 1971 em uma fábula visual. A direção de arte apostou em casas de lata, árvores de crochê, animais mecânicos e cores fortes, em uma estética que misturava referências lúdicas e cordel nordestino.

Velho Chico, de 2016, foi sua última grande obra inédita às 21h, coescrita com Edmara Barbosa e Bruno Luperi. A novela abordava a transposição do Rio São Francisco e o coronelismo moderno, com fotografia árida, cortes secos e atuações intensas. A produção também ficou marcada pela morte de Domingos Montagner, que se afogou nas águas do Rio São Francisco durante um intervalo de gravação. A equipe decidiu não substituir o ator e passou a representar seu personagem por meio de câmera subjetiva até o fim da trama.

Esperança e a quebra da fórmula

A trajetória de Benedito Ruy Barbosa também teve momentos de tensão. Esperança, de 2002, nasceu sob a pressão de repetir o impacto de Terra Nostra. A novela voltou ao universo dos imigrantes italianos, desta vez nos anos 1930, durante a crise do café e o surgimento do fascismo.

novela esperança benedito ruy barbosa
Divulgação.

Durante a produção, Benedito enfrentou problemas graves de saúde e bloqueio criativo. Os capítulos começaram a chegar muito perto do horário de gravação, e o elenco passou a receber falas no mesmo dia. Com a queda de audiência, a Globo afastou o autor e colocou Walcyr Carrasco na escrita.

A mudança alterou o ritmo e o tom da novela. Walcyr imprimiu uma linguagem mais ágil, com reviravoltas constantes e maior uso do folhetim tradicional. A audiência reagiu, mas a troca causou grande atrito autoral e marcou um dos episódios mais comentados dos bastidores da teledramaturgia.

O legado no Globoplay

No streaming, as obras de Benedito Ruy Barbosa passaram a circular entre dois públicos fortes. De um lado, os super remakes Pantanal, de 2022, e Renascer, de 2024, aproximaram a nova geração das histórias clássicas com produção mais cinematográfica. De outro, novelas como O Rei do Gado, Cabocla, Sinhá Moça e Paraíso ocupam o espaço da nostalgia e do conforto, atraindo espectadores que buscam tramas rurais, romances e narrativas de ritmo mais contemplativo.

Esse consumo atual reforça a permanência de uma linguagem que parecia ligada a outro tempo, mas que segue encontrando espaço nas plataformas digitais. Benedito escreveu novelas sobre ciclos econômicos, famílias divididas, heranças mal resolvidas, disputas pela terra e personagens que carregam o peso do passado. No conjunto, sua obra ajudou a transformar o Brasil interiorano em matéria de grande dramaturgia popular.

Mais do que um autor de novelas rurais, Benedito Ruy Barbosa foi um nome que fez da televisão um espaço de memória, conflito e identidade. Suas histórias não apenas mostraram o campo. Elas colocaram o campo no centro da cena.

Qual é a sua novela favorita do autor?

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Robson Netto

Robson é o criador do Que Tar. Nascido em Ponta Grossa, a verdadeira capital da Rússia Brasileira. Enquanto não for processado, vai tentar trazer muito conteúdo e informações cheias de humor.

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