Crítica | Coração Partido é até bonito de ver, mas difícil de levar a sério

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Coração Partido é daqueles romances adolescentes que já deixam bem claro desde os primeiros minutos onde pretendem chegar, apostando sem muita cerimônia na garota nova e reservada, no bullying escolar, no bad boy charmoso e cheio de problemas e, claro, na aproximação inevitável entre duas pessoas que começam praticamente se estranhando.

O filme é bem produzido, tem uma fotografia muito bonita e consegue aproveitar a luz natural de um jeito especialmente agradável, mas, quando o assunto é a história, a sensação é de estar diante de uma reunião de clichês conhecidos demais, alguns funcionando dentro da proposta e outros tornando tudo mais artificial do que deveria.

A história começa com Polina Tumanova em uma viagem de trem para uma nova cidade, carregando aquela esperança típica de quem está prestes a começar outra fase da vida. Ela é uma adolescente doce, reservada e bastante observadora, que gosta de registrar as coisas, sentir o ambiente e simplesmente viver o momento, característica que o filme tenta destacar desde cedo ao mostrar sua relação com aquilo que observa ao redor. Da janela de seu novo apartamento, por exemplo, Polina já encontra algo bastante interessante para acompanhar: um rapaz bonito, tatuado, charmoso e com toda aquela aparência de quem sabe exatamente o efeito que provoca nas pessoas.

Esse rapaz é Dima Barsukov, o Bars, um jovem rebelde que também compete em corridas de moto, coleciona conflitos e possui aquele pacote completo do bad boy adolescente construído especialmente para romances desse tipo. O primeiro contato mais direto entre os dois acontece por causa de um gatinho abandonado, já que ambos querem ajudar o animal, mas rapidamente transformam a situação em uma disputa. Bars se acha demais, provoca Polina e ainda tenta confrontá-la dizendo que ela estaria perseguindo e ameaçando ele, uma sequência que pretende estabelecer o clima de provocação entre os protagonistas, embora acabe sendo um pouco constrangedora.

Pôster de Coração Partido (2026)
Divulgação: All Media A Start Company / via TMDB.

Quando Polina finalmente chega à nova escola e é apresentada à turma, lá está novamente Bars, com olhar sedutor, comportamento engraçadinho, aversão às regras e aquela postura de quem domina o ambiente. O embate entre os dois continua, mas os problemas maiores começam quando outro rapaz tenta fazer amizade com Polina. Desde o início existe alguma coisa estranha naquela aproximação, e a impressão de que ele pretende apenas ridicularizá-la rapidamente se confirma. Os dois chegam a sair para tomar um café em uma praça diante de um lago, enquanto alguém fotografa o encontro como se duas pessoas sentadas conversando fossem protagonistas de algum grande escândalo.

E realmente existe uma intenção por trás daquilo. O rapaz estava apenas brincando com Polina, numa daquelas situações de bullying que tornam esse tipo de romance adolescente um tanto cansativo, especialmente porque o filme vai empilhando comportamentos cruéis para deixar claro o quanto sua protagonista está isolada. Duas garotas da classe ainda tentam se aproximar dela e, por alguns minutos, parecem representar a possibilidade de novas amizades. Elas são fãs de K-pop e protagonizam até uma dança no parque, numa cena que pretende ser descontraída, mas que acaba entrando facilmente na categoria do constrangimento alheio.

Ao mesmo tempo, a câmera começa a sugerir que alguém acompanha Polina, reforçando uma sensação de perseguição que se mistura aos problemas na escola. Em casa, a protagonista também tenta estabelecer alguma conexão com a mãe, que parece tão jovem que a diferença entre as duas chega a causar certo estranhamento. As conversas sobre relacionamentos buscam criar uma intimidade entre mãe e filha e ainda revelam um lado bastante mais desinibido da mãe, mas a situação familiar vai ganhando contornos muito menos leves conforme a trama apresenta o homem com quem ela está se relacionando.

Na escola, Polina passa a ser chamada de “ratazana”, apelido provocado justamente pela fotografia feita durante seu encontro com o rapaz que fingiu amizade. A responsável por boa parte daquele bullying é Malina, a garota popular e maldosa da turma que, para piorar, ainda é filha de uma professora. É nesse momento que Bars deixa de ser apenas o rapaz bonito que aparece no caminho de Polina e começa a assumir uma função muito mais importante dentro da história.

Quando o bullying chega a um ponto extremo, Bars interfere e decide proteger Polina de uma maneira nada discreta. Ele a beija à força diante da escola e anuncia que ela é sua namorada, tratando a garota praticamente como sua propriedade e deixando claro que ninguém mais poderá mexer com ela. Particularmente, os dois estabelecem um acordo: Bars continuará fingindo ser seu namorado para afastar os agressores e, em troca, Polina precisará seguir algumas regras e interpretar o papel da namorada perfeita.

Começa então a parte mais previsível da história, porque obviamente aquilo que nasce como um namoro falso vai adquirindo sentimentos verdadeiros. Bars continua autoritário, provocador e fechado, enquanto Polina não aceita facilmente suas imposições, mas a convivência faz com que ambos conheçam lados diferentes um do outro. Ela percebe que existe um passado doloroso escondido por trás daquela pose de garoto perigoso, enquanto ele passa a enxergar a coragem e a bondade da jovem que tentou proteger inicialmente apenas dentro dos limites daquele acordo.

O problema é que o roteiro começa a acrescentar conflitos demais ao redor dessa relação. Surge o passado de Bars, aparece um inimigo ligado a ele e, de maneira bastante conveniente, esse personagem também acaba relacionado aos responsáveis pelo bullying contra Polina. A conexão parece deslocada e dá a impressão de que o filme precisava amarrar todos os problemas possíveis em uma mesma trama. Para completar, o namorado da mãe de Polina também possui alguma relação com esse universo, fazendo a história entrar em caminhos cada vez mais carregados e, francamente, bem menos interessantes.

Imagem promocional de Coração Partido (2026)
Divulgação: All Media A Start Company / via TMDB.

Essa parte também evidencia uma das principais fragilidades do filme. Coração Partido introduz temas sérios como bullying, abuso e violência dentro do ambiente familiar, mas não consegue aprofundá-los na mesma medida em que os utiliza para movimentar o romance. Muitas dessas questões acabam funcionando mais como obstáculos para aproximar Polina e Bars do que como conflitos realmente desenvolvidos. O próprio Bars se transforma no porto seguro da protagonista, inclusive enfrentando o homem que torna sua vida dentro de casa insuportável, mas essa construção reforça mais uma vez aquela ideia conhecida do garoto problemático que, no fundo, é justamente quem vai salvar a mocinha.

Também não ajuda completamente o fato de Daniel Vegas, que interpreta Bars, ter 29 anos enquanto vive um adolescente do ensino médio. Dentro de um filme que já apresenta diálogos e algumas situações pouco naturais, isso aumenta ainda mais a sensação de artificialidade em determinados momentos. Há cenas em que os personagens parecem menos adolescentes reais e mais versões idealizadas de figuras típicas dos romances young adult.

Visualmente, porém, Coração Partido encontra seu principal mérito. Michael Vaynberg conduz uma produção bonita, moderna e muito agradável de acompanhar, com uma fotografia que trabalha bem a luz natural, as paisagens e os momentos mais contemplativos de Polina. Existe cuidado na construção da estética e na maneira como o romance é apresentado visualmente, inclusive permitindo que a relação dos protagonistas seja intensa sem depender de cenas excessivamente apelativas.

O filme sabe exatamente qual público pretende atingir e provavelmente funciona melhor para quem ainda se diverte com romances adolescentes repletos de bullying, bad boys de moto, namoro falso e sentimentos que inevitavelmente deixam de ser falsos. Para quem já está cansado dessa fórmula, entretanto, Coração Partido dificilmente vai surpreender. É bonito de assistir, possui protagonistas construídos para conquistar o público e até encontra bons momentos dentro de sua proposta, mas o excesso de clichês, algumas situações constrangedoras e principalmente a maneira superficial como trata conflitos pesados impedem que o romance emocione tanto quanto gostaria.

O coração pode até terminar partido, mas a paciência com certos clichês adolescentes corre sério risco de quebrar primeiro.

Coração Partido estreia nos cinemas no dia 20 de agosto de 2026 com distribuição da Paris Filmes.

Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Paris Filmes e Espaço Z.

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Robson Netto

Robson é o criador do Que Tar. Nascido em Ponta Grossa, a verdadeira capital da Rússia Brasileira. Enquanto não for processado, vai tentar trazer muito conteúdo e informações cheias de humor.

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