O Fim da Rua é um daqueles filmes chocantes que fazem qualquer apego ao próprio bairro desaparecer rapidinho, porque quando dinossauros começam a surgir no quintal e a sua casa deixa de representar segurança, talvez se mandar seja mesmo a melhor opção. Leia a crítica completa do filme da Warner Bros. Pictures.
O Fim da Rua é uma grande surpresa porque sabe brincar com a expectativa do público. O que começa como um drama familiar ambientado em uma vizinhança tranquila rapidamente se transforma em uma história de ficção científica, sobrevivência e dinossauros, mas sem tratar essas criaturas como simples espetáculo. Aqui, elas assustam de verdade. O filme trabalha com uma sensação constante de abandono, perda de segurança e deslocamento, colocando seus personagens diante de uma pergunta bastante simples e desesperadora: o que acontece quando aquilo que sempre foi considerado seu lar deixa de ser um lugar seguro?
Escrito e dirigido por David Robert Mitchell, o longa acompanha a família Platt, que vive em Oak Street, uma pequena vizinhança onde a rotina parece seguir tranquilamente entre os anos 80 e 90. Logo no começo, o filme apresenta um dia ensolarado, com moradores fazendo churrascos, conversando e aproveitando a vida no bairro, criando uma atmosfera acolhedora que posteriormente será completamente destruída.

É nesse cenário que surge a personagem de Anne Hathaway, Denise, uma mãe que atravessa uma crise no relacionamento e também começa a questionar os rumos da própria vida. Secretamente, ela escreve um romance sobre uma mulher que deseja fugir de suas responsabilidades familiares, algo que evidentemente dialoga com suas próprias inquietações. Sua principal confidente é uma vizinha mais velha, que foi editora do falecido marido, um escritor famoso, e agora acompanha o processo criativo da protagonista, dando palpites sobre a história.
A família ainda conta com uma filha adolescente, Audrey, interpretada por Maisy Stella, personagem que adiciona questionamentos interessantes ao drama familiar, e um garoto mais novo, Brian, interpretado pelo fofíssimo Christian Convery, que demonstra certa imaturidade e vive entrando em pequenas brigas e intrigas com outras crianças da vizinhança. Greg, o pai, vivido por Ewan McGregor, tenta complementar a renda trabalhando também como entregador de pizza, fazendo alguns bicos além de suas outras responsabilidades. Há ainda o cachorro da família, presença constante e responsável por alguns dos primeiros conflitos com um vizinho particularmente implicante.
Essa apresentação é importante porque o filme dedica tempo para mostrar uma família que claramente possui carinho entre seus integrantes, mas que também parece emocionalmente distante em determinados aspectos. Durante um jantar, cada personagem revela um pouco de suas preocupações, e essa dinâmica consegue representar algo bastante comum em muitas famílias, pessoas que vivem juntas, gostam umas das outras, mas nem sempre conseguem realmente conversar sobre aquilo que estão sentindo.

Enquanto esses pequenos dramas acontecem, algo muito mais estranho começa a surgir em Oak Street. O primeiro grande sinal aparece no jardim da vizinha idosa, onde nasce uma planta completamente diferente das demais, aparentemente jurássica e pré-histórica. A personagem de Hathaway, que costuma registrar as coisas com uma câmera analógica, fotografa a planta e decide investigar. Na biblioteca, descobre que aquela espécie existiu milhões de anos atrás e já deveria estar extinta.
Antes mesmo que alguém consiga compreender o significado disso, outra situação curiosa acontece. Depois de uma madrugada marcada por luzes intensas e ventos fortes, o vizinho implicante encontra uma enorme montanha de esterco no próprio quintal. A cena é engraçada justamente pela surpresa e pelo absurdo da situação, além de inevitavelmente lembrar algo que poderia muito bem existir em Jurassic Park. Afinal, como uma quantidade tão absurda de esterco simplesmente apareceu ali?
Na noite seguinte, o fenômeno se repete de maneira ainda mais intensa. Uma espécie de tempestade de luzes atinge novamente o bairro, dessa vez acompanhada de muita chuva. A energia elétrica desaparece, os moradores escutam gritos do lado de fora e, sem comunicação, a família decide permanecer dentro de casa, reunida na sala, tentando esperar até o amanhecer.
Quando o dia chega, porém, nada parece realmente normal. Não há energia, não há água e o cachorro desapareceu. O pai decide investigar um lado do bairro enquanto a mãe segue por outro caminho, e é nesse momento que começa um dos maiores méritos de O Fim da Rua: a maneira como a direção apresenta gradualmente aquilo que aconteceu.
Cada personagem percebe pequenos sinais até entender que Oak Street simplesmente não está mais no mesmo lugar, nem no mesmo tempo. Tudo indica que uma determinada região do bairro foi teletransportada milhões de anos para o passado, como se um raio gigantesco tivesse recortado precisamente aquele pedaço da cidade e colocado seus moradores em um mundo habitado por criaturas pré-históricas.

A partir daí, o filme abandona qualquer sensação de segurança. Dinossauros de tamanhos e espécies diferentes começam a circular pelas ruas e pelos quintais, e a direção faz questão de mostrar que essas criaturas não estão ali para serem admiradas. Elas são predadores. Caçam, atacam e matam. Não existe tentativa de transformá-las em animais simpáticos ou possíveis companheiros dos humanos, o que faz toda diferença para a proposta.

O terror alavanca justamente porque existe também uma inversão interessante nessa situação. Para os moradores de Oak Street, os dinossauros invadiram suas casas. Para aquelas criaturas, porém, são os humanos que surgiram repentinamente dentro de seu território. O filme explora muito bem essa sensação de invasão e pertencimento, transformando a vizinhança familiar em um espaço completamente hostil.

Também ajuda bastante o fato de não existir algum especialista conveniente pronto para explicar tudo ou encontrar a solução. Não há um cientista acompanhando a família e fornecendo respostas sobre cada fenômeno. Os personagens precisam compreender sozinhos aquilo que está acontecendo, usando observação, tentativa, erro e principalmente instinto de sobrevivência. As referências a conceitos como buracos de minhoca e relações entre tempo e espaço aparecem dentro dessa construção de ficção científica, mas o foco continua sendo a experiência das pessoas presas naquela situação.

David Robert Mitchell conduz essas descobertas com muita precisão, especialmente através dos enquadramentos. Há momentos em que a câmera mantém um personagem em primeiro plano enquanto outra ação importante acontece ao fundo, criando uma espécie de dualidade visual que aumenta o mistério e a tensão. Os closes também são muito bem utilizados, enquanto o contraplano frequentemente revela algo que muda completamente a percepção da cena.

O trabalho do diretor de fotografia Michael Gioulakis contribui diretamente para essa atmosfera. A composição visual consegue transformar lugares aparentemente comuns em espaços ameaçadores, enquanto a montagem de John Axelrad sustenta muito bem os momentos de suspense e ação. A trilha de Michael Giacchino completa essa experiência, acompanhando a mudança gradual de um drama familiar para uma aventura brutal de sobrevivência.
Mesmo com toda essa tensão, o filme encontra espaço para algumas piadas bem colocadas e pequenos momentos de humor, sem quebrar o clima construído. Os dramas familiares também continuam presentes, porque sobreviver naquele ambiente exige que essas pessoas encarem não apenas os dinossauros, mas seus próprios segredos, medos e conflitos.
O Fim da Rua marca sua presença porque entende que um bom filme de dinossauro precisa recuperar o medo dessas criaturas. Não se trata apenas de olhar para um animal gigantesco com admiração, mas de perceber que aquele predador pode estar literalmente no quintal da sua casa. Há cenas realmente tensas, capazes de deixar o espectador grudado no sofá, acompanhando um jogo de gato e rato cada vez mais cruel entre humanos e criaturas pré-históricas.
É um filme caprichosamente produzido, visualmente cuidadoso e surpreendente na maneira como mistura ficção científica, drama familiar, mistério e sobrevivência. Depois de tantos filmes tratando dinossauros principalmente como espetáculo, O Fim da Rua recupera algo que fazia muita falta ao gênero: o medo. E, logicamente por isso, é uma das produções mais interessantes com essas criaturas desde o primeiro filme do parque jurássico, deixando ainda espaço suficiente para imaginar novas histórias dentro desse universo e questionar se aquilo aconteceu apenas naquela região ou se algum fenômeno semelhante poderia voltar a acontecer. Uma grande surpresa e, acima de tudo, um filme muito divertido de assistir.
O Fim da Rua estreia nos cinemas no dia 13 de agosto, com distribuição da Warner Bros. Pictures Brasil.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Warner Bros Pictures e Espaço Z.
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