Pinóquio ganha nova versão com visual marcante, música e uma história sobre milagres, escolhas e a relação entre pai e filho. Vale a pena assistir? Leia a crítica completa.
A nova adaptação do clássico, Pinóquio (2026), parte de uma proposta que chama atenção logo de início, principalmente pela forma como trabalha a ideia dos milagres, trazendo a chave dourada como um símbolo capaz de abrir portas para desejos profundos, quase como uma metáfora concreta da esperança, mas também dos limites do que realmente pode ser pedido, o que já estabelece um tom interessante para a narrativa que se desenvolve ao longo da história.

A trama começa de maneira curiosa, com três baratas roubando essa chave dourada da tartaruga sábia Tortilla e escondendo o objeto no armário do carpinteiro Gepeto (Aleksandr Yatsenko), junto de um bilhete que orienta a abrir uma porta misteriosa atrás da lareira e fazer um desejo. Gepeto, em um gesto simples e profundamente humano, deseja apenas um filho, o que dá à história um ponto de partida emocional bastante claro, mas o filme rapidamente mostra que nem tudo é tão direto assim, já que Tortilla interrompe o processo e leva a chave de volta, criando uma quebra de expectativa que abre espaço para algo mais simbólico acontecer.
É nesse momento que surge Pinóquio (Vitaliya Kornienko), a partir de um tronco que começa a se mexer dentro do armário, dando origem a um boneco que ganha vida de forma quase espontânea, e aqui o filme já apresenta uma de suas propostas mais interessantes, que é a forma diferente de contar a origem do personagem, fugindo um pouco do tradicional, mas ainda mantendo o núcleo emocional da relação entre pai e filho. Gepeto aceita Pinóquio imediatamente, o que causa uma certa estranheza, já que sua reação parece quase exageradamente natural diante de algo completamente fora do comum, o que pode soar um pouco desconfortável, mas também reforça a intensidade do desejo que ele carregava.
A tentativa de inserir Pinóquio na sociedade vem através da escola, mas o rejeito é imediato, o que leva o personagem a perceber sua diferença e fugir, dando início a uma jornada que se constrói muito mais como um percurso de descobertas do que apenas uma aventura linear. O encontro com o teatro e com Barabas (Fyodor Bondarchuk) marca um ponto de virada importante, trazendo à tona uma crítica interessante sobre controle, espetáculo e exploração, já que o personagem é rapidamente transformado em uma atração, quase como um produto, enquanto Gepeto acredita ter perdido o filho.

Visualmente, o filme chama bastante atenção, com um trabalho cuidadoso na construção de cenários, figurinos e iluminação, explorando muito bem o contraste entre cores quentes e frias, criando uma paleta que brinca com tons de azul e laranja de forma bastante expressiva, o que contribui para dar identidade ao longa e reforçar o aspecto visual como um dos seus principais pontos fortes.
Outro elemento que se destaca é o caráter musical da obra, que aparece de forma constante ao longo da narrativa, com músicas mais melódicas e letras bastante diretas, quase literais, como se estivessem contando a própria história, o que funciona em alguns momentos, mas também pode limitar uma leitura mais simbólica das cenas, além de trazer uma certa estranheza na versão brasileira, especialmente nas performances do coral, que acabam soando um pouco desconectadas do restante da proposta.
A jornada de Pinóquio segue por caminhos curiosos, passando pela fama repentina, pela tentativa de reconectar-se com o pai e pelo contato com personagens que ampliam o universo da história, como Alice e Basilio, o Gato e a Raposa (Viktoriya Isakova e Alexander Petrov), que se destacam bastante pela química entre os atores e pela forma divertida como conduzem suas cenas, especialmente no momento musical, que se torna um dos mais memoráveis do filme.
Mesmo sendo inicialmente apresentados como trapaceiros, esses personagens acabam criando um vínculo com Pinóquio, o que reforça uma das ideias mais interessantes da narrativa, que é a capacidade do protagonista de formar conexões e construir uma espécie de família em diferentes contextos, ainda que essas relações nem sempre sejam saudáveis ou equilibradas.
A passagem pela Terra dos Tolos amplia essa percepção, colocando o personagem em situações onde ele é usado e manipulado, mas ainda assim consegue despertar algum tipo de afeto nas pessoas ao seu redor, o que levanta questionamentos sobre até que ponto essa ingenuidade é uma fraqueza ou uma qualidade, especialmente dentro de um mundo que constantemente tenta explorá-lo.
Há também momentos que sugerem reflexões mais profundas, como a ideia de que milagres não podem interferir diretamente no livre arbítrio, deixando claro que certas coisas não podem ser forçadas, o que adiciona uma camada interessante à narrativa, mesmo que nem sempre seja explorada de forma mais consistente.
Algumas escolhas narrativas, no entanto, geram estranhamento, como o comportamento inicial de Pinóquio, que parece confuso e limitado à repetição de palavras, e também a insistência de Barabas em mantê-lo sob seu controle, sem que fique totalmente claro qual é o real interesse por trás disso, o que pode dar a sensação de que certos conflitos são mais funcionais do que orgânicos dentro da história.

Ainda assim, o filme encontra momentos de força, especialmente quando trabalha suas mensagens de forma mais direta, como na fala de Gepeto sobre não manter amizade com pessoas que nos quebram, o que dialoga com as experiências vividas por Pinóquio ao longo da trama e ajuda a dar mais peso emocional às suas decisões.
O encontro com Tortilla na floresta marca outro ponto importante, trazendo explicações sobre a origem de Pinóquio e devolvendo a chave dourada, que volta a assumir seu papel simbólico dentro da narrativa, conduzindo o personagem para o desfecho, onde ele finalmente tenta realizar o desejo do pai, em um momento que mistura sacrifício, redenção e uma certa carga poética.
O clímax, com o confronto envolvendo Barabas e o disparo contra Gepeto, leva a história para um lugar mais dramático, e o sacrifício de Pinóquio reforça a ideia de que ele já havia se tornado, de fato, o filho que Gepetor desejava, independentemente de qualquer milagre, o que dá sentido ao desfecho em que ele renasce e todos encontram novos caminhos.
A conclusão traz uma sensação de recomeço, com Gepeto criando um novo teatro, os personagens se reorganizando e até mesmo Barabas encontrando outro rumo, o que fecha a história com um tom leve e celebrativo, reforçado pela apresentação final que coloca Pinóquio no centro dessa nova fase.
No geral, Pinóquio de Igor Voloshin é um filme que aposta mais na experiência visual e na construção de momentos do que em uma narrativa totalmente coesa, trazendo ideias interessantes sobre livre arbítrio, exploração e pertencimento, ainda que nem todas sejam desenvolvidas com a mesma força. É uma obra que pode encantar principalmente pelo visual, pelas músicas e por alguns personagens carismáticos, funcionando bem para o público infantil, mas também deixando espaço para reflexões que vão além do básico, especialmente quando se observa o percurso de Pinóquio tentando entender seu lugar no mundo.
Mesmo com algumas estranhezas no caminho, o filme consegue entregar um encerramento que soa poético, quase como um lembrete de que, às vezes, o verdadeiro milagre não está em transformar algo, mas em perceber o valor daquilo que já existe.
Pinóquio estreia nos cinemas no dia 16 de abril.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Paris Filmes.



