O Clube dos Milagres (The Miracle Club) é uma comédia dramática britânico-irlandesa lançada em 2023. Dirigido por Thaddeus O’Sullivan, o filme acompanha quatro mulheres ligadas por uma história marcada por luto, culpa, amizade, fé e conflitos que permaneceram sem solução durante décadas.
Ambientada no interior da Irlanda no final dos anos 1960, a produção reúne Maggie Smith, Kathy Bates, Laura Linney e Agnes O’Casey. A trama parte de uma viagem religiosa até Lourdes, na França, mas utiliza a peregrinação para revelar ressentimentos, segredos familiares e diferentes expectativas sobre a possibilidade de um milagre.
Qual é a história de O Clube dos Milagres?
A história de O Clube dos Milagres começa em 1967, na vila operária de Ballygar, localizada nos arredores de Dublin. O cotidiano da comunidade é profundamente ligado à paróquia local, responsável por organizar um concurso de talentos cujo prêmio desperta o interesse de várias moradoras.
As vencedoras poderão participar de uma peregrinação até Lourdes, cidade francesa conhecida pelos banhos associados à busca por cura. Para Lily, Eileen e Dolly, vencer o concurso representa uma oportunidade de deixar temporariamente a rotina doméstica e procurar respostas para problemas pessoais.
Lily, interpretada por Maggie Smith, é uma mulher idosa que ainda enfrenta o luto pela morte trágica de seu filho, Declan. A perda também deixou um sentimento de culpa que continua presente em sua vida muitos anos depois.

Eileen, vivida por Kathy Bates, descobriu um caroço no seio. Assustada com a possibilidade de estar com câncer, ela deposita sua esperança na viagem religiosa e acredita que a fé poderá ajudá-la antes que precise procurar atendimento médico.
Dolly, personagem de Agnes O’Casey, é uma jovem mãe preocupada com o filho pequeno, que nunca pronunciou uma palavra. Ela espera que as águas de Lourdes possam fazer a criança falar.
As três mulheres pertencem a gerações diferentes, mas encontram na peregrinação um objetivo comum. A expectativa de uma cura física ou espiritual faz com que o concurso seja visto como uma oportunidade difícil de ignorar.
O retorno de Chrissie transforma a viagem
A dinâmica entre as amigas muda com a chegada de Chrissie, interpretada por Laura Linney. Ela retorna dos Estados Unidos depois de 40 anos para participar do funeral da mãe.
A presença da personagem provoca desconforto em Ballygar porque seu passado está diretamente ligado à família de Lily. Quando era jovem, Chrissie engravidou de Declan, o filho falecido de Lily. Após a gravidez, ela foi rejeitada pela própria mãe, afastada das antigas amigas e obrigada a deixar o país.
O retorno faz com que conflitos mantidos em silêncio durante quatro décadas voltem a fazer parte da rotina da comunidade. Chrissie não chega apenas para se despedir da mãe. Sua presença obriga as outras mulheres a confrontarem decisões tomadas quando todas ainda eram jovens.
Por uma mudança inesperada nos acontecimentos, Chrissie também acaba participando da peregrinação. A viagem passa a reunir quatro mulheres que compartilham lembranças, ressentimentos e versões diferentes sobre os acontecimentos do passado.
O que acontece durante a peregrinação a Lourdes?
Distantes de Ballygar e das obrigações domésticas, Lily, Eileen, Dolly e Chrissie encontram espaço para conversar sobre assuntos que nunca foram resolvidos.
Lourdes representa uma possibilidade diferente para cada integrante do grupo. Lily deseja lidar com a culpa relacionada à morte do filho. Eileen procura uma resposta para o medo provocado pelo caroço no seio. Dolly espera que o filho consiga falar. Chrissie tenta compreender o afastamento que marcou sua juventude e sua relação com as mulheres da comunidade.
A convivência durante a viagem expõe as feridas que permaneciam escondidas. As personagens percebem que as águas e os rituais religiosos não podem substituir as conversas que evitaram durante anos.
Em O Clube dos Milagres, o sentido do milagre deixa de estar ligado apenas a uma transformação física. A jornada passa a envolver a possibilidade de perdão, reconciliação com o passado e recuperação dos vínculos afetivos rompidos.
O filme aborda como a ausência de diálogo pode prolongar sentimentos de culpa e ressentimento. A peregrinação cria as condições para que as quatro mulheres observem suas histórias por outra perspectiva, mesmo quando não encontram as respostas que esperavam inicialmente.
Os maridos precisam assumir as tarefas domésticas
Enquanto as mulheres viajam para a França, os maridos permanecem na Irlanda. A situação cria uma subtrama voltada ao trabalho doméstico realizado diariamente pelas personagens.
Sem a presença delas, os homens precisam cuidar das crianças, trocar fraldas, preparar refeições e organizar as casas. Entre as dificuldades enfrentadas estão alimentos queimados e a falta de experiência com tarefas que antes eram tratadas como responsabilidade exclusiva das mulheres.
Stephen Rea interpreta um dos homens deixados em Ballygar. A passagem combina humor com uma observação sobre a divisão das responsabilidades familiares.
Ao mostrar os maridos tentando administrar a rotina, O Clube dos Milagres evidencia o volume de trabalho executado pelas mulheres sem reconhecimento dentro de casa. A viagem interrompe temporariamente essa estrutura e obriga os homens a perceberem as exigências presentes no cotidiano doméstico.
A inspiração por trás de O Clube dos Milagres
Embora Lily, Eileen, Dolly e Chrissie sejam personagens fictícias, a história possui elementos ligados às memórias do co-roteirista Jimmy Smallhorne.
Ele cresceu em Ballyfermot, um subúrbio operário de Dublin semelhante à vila apresentada no filme. O roteiro nasceu das lembranças sobre as mulheres da comunidade e sobre as dificuldades enfrentadas pelas famílias irlandesas daquele período.
Smallhorne desenvolveu a história como uma homenagem às mães que conheceu durante a juventude. Muitas criavam famílias com dez ou doze filhos, mesmo com poucos recursos financeiros.
Uma das imagens que influenciaram o roteiro veio de uma lembrança da infância. O co-roteirista viu uma mãe equilibrada sobre um banco enquanto colava papel de parede. Para proteger o cabelo da tinta, ela havia amarrado uma calcinha na cabeça.
Para Smallhorne, a cena representava a criatividade e a resistência das mulheres da classe trabalhadora. Essa combinação de improviso, responsabilidade e esforço doméstico foi incorporada à construção das personagens.
A importância de Lourdes para a história
A peregrinação até Lourdes não foi escolhida apenas como cenário para a viagem. Na Irlanda católica daquela geração, as excursões para a cidade francesa faziam parte da vida de diversas comunidades.
Thaddeus O’Sullivan explicou que algumas pessoas economizavam durante anos para conseguir realizar a viagem. Entre as motivações estavam a busca por uma cura física, a esperança de receber ajuda divina ou a necessidade de se afastar temporariamente de uma realidade difícil.
Essa relação cultural ajuda a explicar por que Lily, Eileen e Dolly depositam tantas expectativas no prêmio oferecido pela paróquia. A peregrinação representa uma oportunidade religiosa, mas também uma rara possibilidade de deixar Ballygar e viver uma experiência fora das obrigações familiares.
No filme, Lourdes funciona como espaço de fé e também como cenário para a exposição dos conflitos. É durante a viagem que as personagens conseguem discutir o passado, os medos e as expectativas que levaram cada uma até a França.
O último trabalho de Maggie Smith no cinema
O Clube dos Milagres tornou-se o último trabalho de Maggie Smith no cinema. A atriz morreu em setembro de 2024, aos 89 anos.
No filme, ela interpreta Lily, personagem diretamente ligada ao principal conflito do passado. A morte de Declan e a gravidez de Chrissie conectam as histórias das quatro mulheres e ajudam a explicar os ressentimentos existentes dentro da comunidade.

O projeto levou quase duas décadas para chegar às telas. Em 2006, a HBO demonstrou interesse em produzir o roteiro, mas a realização não avançou naquele momento.
A participação de Maggie Smith ajudou a manter o projeto em desenvolvimento durante esse período. Depois de diferentes tentativas, a produção foi retomada e lançada em 2023.
Como foram gravadas as cenas de Lourdes?
A equipe não conseguiu autorização para filmar no verdadeiro Santuário de Lourdes, na França. Por esse motivo, os espaços utilizados durante a peregrinação precisaram ser recriados.
Os banhos associados à cidade foram reproduzidos em estúdios para as gravações. As réplicas permitiram que o filme apresentasse os rituais e os momentos vividos pelas personagens sem utilizar o local religioso original.
A peregrinação ocupa uma parte central da narrativa porque reúne as quatro protagonistas longe da Irlanda. O deslocamento modifica as relações entre elas e permite que as questões familiares sejam discutidas fora do ambiente em que surgiram.
A estreia de Agnes O’Casey no cinema
O filme também marcou a estreia de Agnes O’Casey nas telas de cinema. A atriz irlandesa interpreta Dolly, a personagem mais jovem do grupo principal.
Em seu primeiro longa-metragem, O’Casey contracenou diretamente com Maggie Smith, Kathy Bates e Laura Linney. Dolly representa uma geração diferente dentro do quarteto, mas enfrenta pressões domésticas e familiares semelhantes às vividas pelas mulheres mais velhas.
Sua busca está relacionada ao filho que ainda não falou. A expectativa de que Lourdes possa ajudar a criança reforça a maneira como cada personagem associa a viagem a um problema específico.
Ao reunir mulheres de idades diferentes, O Clube dos Milagres mostra como as responsabilidades familiares, a culpa e os conflitos não resolvidos atravessam gerações. A viagem religiosa conduz a história, mas o centro do filme está nas relações que precisam ser reconstruídas.
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