Além do Tempo: como a novela atravessou séculos e transformou seus personagens. Entenda as duas fases de Além do Tempo, a reencarnação dos personagens, os bastidores da produção e os números de audiência da novela.
Exibida originalmente entre 2015 e 2016, Além do Tempo é lembrada como um dos grandes acertos recentes da teledramaturgia brasileira. Escrita por Elizabeth Jhin, a novela assumiu um risco incomum ao subverter a estrutura tradicional dos folhetins e apresentar, na prática, duas histórias diferentes dentro da mesma produção.
A divisão não aconteceu apenas por meio de uma passagem de alguns anos. A trama avançou mais de 150 anos, substituiu completamente sua ambientação e apresentou novas versões dos personagens, mantendo como ligação entre as fases o conceito de reencarnação.
A primeira fase de Além do Tempo no século XIX
Os capítulos 1 ao 87 foram ambientados no final dos anos 1800, na fictícia Campo Bello. Essa parte da história acompanhou o romance trágico entre Lívia, personagem de Alinne Moraes, e o Conde Felipe, interpretado por Rafael Cardoso.
Lívia era uma ex-noviça de origem humilde, enquanto Felipe pertencia à nobreza. Mesmo separados pelas diferenças sociais e pelas circunstâncias ao redor de suas famílias, os dois se apaixonaram. O relacionamento, entretanto, foi constantemente ameaçado pelas ações de Pedro, vivido por Emílio Dantas, e Melissa, interpretada por Paolla Oliveira.
A Condessa Vitória, personagem de Irene Ravache, também exercia forte influência sobre os acontecimentos. Severa e ligada às regras da aristocracia, ela observava e interferia nas relações que se desenvolviam em Campo Bello.
O desfecho da primeira fase rompeu com uma das principais expectativas das novelas. No capítulo 87, Lívia e Felipe não conseguiram superar os obstáculos para viver o esperado final feliz.

Pedro empurrou Lívia de um penhasco. Felipe tentou salvá-la, mas os dois acabaram morrendo afogados. A sequência encerrou tragicamente o romance e preparou a história para uma mudança completa de época, cenário e dinâmica entre os personagens.
A reencarnação dos personagens em 2015
A segunda fase começou no capítulo 88 e seguiu até o capítulo 161. A história avançou mais de 150 anos, chegando a 2015 e à cidade fictícia de Bela Rosa.
Os personagens retornaram como reencarnações das figuras apresentadas no século XIX. As almas permaneciam ligadas, mas as posições sociais, os relacionamentos e os conflitos foram reorganizados. A mudança permitiu que antigos inimigos passassem a conviver de maneiras inesperadas.
A principal inversão envolveu Vitória e Emília, vivida por Ana Beatriz Nogueira. Na primeira fase, as duas eram inimigas e carregavam um profundo ressentimento. Nos dias atuais, elas reencarnaram como mãe e filha, permanecendo na mesma família para enfrentar os conflitos deixados pela existência anterior.
Melissa também recebeu uma nova oportunidade. Em vez de repetir integralmente o caminho da primeira fase, a personagem teve a possibilidade de redenção. No encerramento da novela, foi ela quem salvou Lívia e Felipe da morte planejada por Pedro.
A intervenção modificou o destino dos protagonistas e permitiu que o casal tivesse o final feliz que havia sido interrompido no século XIX.
Figurinos exigiram milhares de peças e metros de tecido
A produção das duas fases exigiu uma ampla operação nos bastidores da Globo. Somente para construir a ambientação do século XIX, a fábrica dos Estúdios Globo produziu aproximadamente 2.000 peças de roupa.
Cerca de 5,5 mil metros de tecidos foram utilizados na confecção de anáguas, corseletes e saias. Cada vestido consumia entre cinco e seis metros de tecido e podia levar até uma semana para ser finalizado.
Os cabelos também contribuíram para diferenciar visualmente os períodos da história. Todas as atrizes do elenco utilizaram apliques capilares ou perucas durante a primeira fase, reforçando a caracterização da aristocracia retratada na novela.
A preocupação com a estética chegou aos animais usados nas gravações. Um cavalo da raça Crioulo participou das cenas externas, mas sua crina havia sido cortada, uma prática comum entre criadores modernos. Para adequá-lo à aparência do século XIX, a equipe produziu uma crina artificial especialmente para o animal.
Fazendas históricas e cidade cenográfica
As cenas externas do casarão da Condessa Vitória e do convento foram gravadas em fazendas reais localizadas em Vassouras e Rio das Flores, no interior do Rio de Janeiro.
O jardim apresentado na primeira fase recebeu 1.000 rosas vermelhas artificiais. O objetivo era reproduzir a aparência organizada e simétrica associada aos jardins franceses.
Para a etapa ambientada em 2015, Bela Rosa ganhou uma cidade cenográfica com 3,5 mil metros quadrados. O espaço era formado por 20 prédios e ajudou a estabelecer a nova identidade visual da história após o salto temporal.
A influência da doutrina espírita
Além do Tempo faz parte do conjunto de novelas de temática espírita escritas por Elizabeth Jhin. A autora também assinou Escrito nas Estrelas, exibida em 2010, e Espelho da Vida, lançada em 2018.
A história foi elogiada por estudiosos do espiritismo por representar o conceito kardecista de que pessoas que foram inimigas em outras existências podem reencarnar dentro da mesma família.
O arco de Vitória e Emília foi construído a partir dessa ideia. Ao retornarem como mãe e filha, as personagens precisaram conviver sob o mesmo teto e enfrentar os traumas e ressentimentos acumulados na vida anterior.
A relação funcionava como um espaço de aprendizado, no qual os espíritos poderiam superar o ódio e desenvolver o perdão. A mensagem apresentada pela autora era a de que uma nova existência oferece outra oportunidade para reparar erros e equilibrar o saldo cármico.
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Audiência respondeu à mudança de fase
A estreia da segunda fase repercutiu como o lançamento de uma nova produção. A troca de época e a transformação completa dos personagens mobilizaram o público e geraram comentários nas redes sociais.
Na exibição original, Além do Tempo terminou com média geral de 20 pontos em São Paulo. O resultado superou as quatro novelas anteriores da faixa, incluindo Boogie Oogie e Sete Vidas.

O último capítulo registrou 21,9 pontos em São Paulo. No Rio de Janeiro, alcançou 28 pontos e 48% de participação, tornando-se a melhor marca do horário desde Flor do Caribe, exibida em 2013.
Em 2025, a novela foi reprisada no Globoplay Novelas e chegou a liderar a audiência da televisão por assinatura durante seu horário. O desempenho contribuiu para que a produção retornasse posteriormente à televisão aberta.
A edição especial de 2026 estreou nas tardes da Globo com média de 11,3 pontos durante a primeira semana. Sem a exibição em sequência com Terra Nostra, porém, perdeu aproximadamente 31% do público inicial e chegou a registrar 8,8 pontos durante a semana.
Entre os aspectos mais comentados pelo público e pela crítica estava a mudança na relação entre Ana Beatriz Nogueira e Irene Ravache. As atrizes passaram de inimigas no século XIX para mãe e filha nos dias atuais, reorganizando completamente o núcleo das personagens.
A estrutura de Além do Tempo mostrou que o público das novelas das 18h poderia acompanhar mudanças radicais, saltos temporais e inversões de papéis, desde que o melodrama principal permanecesse conectado entre as diferentes fases.


