Filmes de guerra não costumam me atrair e prender minha atenção, talvez eu os evite por preferir filmes que me ajudem a escapar da realidade e não a encarar de forma brutal, impactante e atraente como conseguiu o diretor Alex Garland em Guerra Civil.
Produzido pela A24, estúdio que está ocupando o espaço nas telas e nas mentes dos amantes de filmes, Guerra Civil apresenta uma distopia onde os Estados Unidos estão em guerra civil onde o inimigo é ele mesmo.
Ao contrário dos filmes tradicionais de Hollywood, Guerra Civil imagina um conflito de larga escala nos Estados Unidos contemporâneos, inspirado em comportamentos de líderes mundiais atuais.
A guerra civil nos Estados Unidos, como retratada no filme, surge de uma combinação de eventos e ações do presidente americano, cujo extremismo e autoritarismo desencadeiam uma divisão profunda na sociedade. O presidente, que assumiu um terceiro mandato e dissolveu o FBI, utiliza drones contra os próprios cidadãos, provocando revolta e resistência. Essas ações despertam a oposição de uma parte da população, representada por alianças como as Forças Ocidentais, o Novo Exército Popular e a Aliança da Flórida, que se unem contra o regime. A divisão do país entre os que apoiam o presidente e os que lutam contra ele leva a uma guerra civil generalizada, onde o jornalismo e a busca pela verdade se tornam armas poderosas em meio ao caos e à violência.

O filme segue quatro jornalistas, interpretados por Kirsten Dunst (Lee), Wagner Moura (Joe), Cailee Spaeny (Sammy) e Stephen McKinley Henderson (Jessie), em uma viagem de Nova York a Washington D.C. para registrar os eventos finais do presidente em meio ao conflito.
Lee é uma das personagens mais intensas que eu já vi em tela, retratando uma jornalista que atua como fotógrafa de guerra, acostumada a cobrir conflitos ao redor do mundo (apresentados em cortes brutais durante a narrativa). Kirsten Dunst exibe a dor e o cansaço de Lee, que vai crescendo à medida que os personagens chegam até o destino de todos.
Dunst entrega uma atuação rica do começo ao fim, trazendo uma mulher endurecida pelas circunstâncias, mas ainda assim capaz de transmitir vulnerabilidade e humanidade.
Wagner Moura é Joe, parceiro de Lee na jornada para entrevistar o presidente em meio ao caos da guerra civil. O personagem é visto como um contraponto à seriedade de Lee, trazendo até mesmo um jeitinho brasileiro ao personagem que nasceu na Flórida, encontrando na adrenalina da guerra uma fonte de excitação.
Moura entrega uma atuação marcante, mas que se destaca apenas a partir do segundo ato de Guerra Civil, quando vemos sua habilidade de transitar entre momentos de tensão e humor. Embora a direção de seu personagem às vezes disfarce o tom intenso do filme, sua atuação é marcante pela sua presença em tela e pela complexidade que traz ao papel.
Nos apegamos ao personagem de Jessie, uma jovem aspirante a jornalista que se junta a Lee e Joe em sua missão perigosa, não pela sua figura juvenil e aparentemente indefesa, mas por notarmos o potencial que ela desenvolve e arrisca ao longo do filme.
Interpretada por Cailee Spaeny, a personagem encontra em Lee uma mentora, que aprende uma lição valiosa: registrar tudo, mesmo que possa custar sua vida ou suas lágrimas. Spaeny é traz uma interpretação sensível e convincente, cheia de química com o restante do elenco, transmitindo a angústia e o medo de uma jovem confrontada com a brutalidade da guerra.
Sammy, um veterano de guerra e amigo de longa data de Lee e Joe, interpretado por Stephen McKinley Henderson, carrega consigo as marcas físicas e emocionais de seus anos de experiência.
Henderson entrega uma atuação sólida, transmitindo a gravidade da experiência de seu personagem e sua relação de amizade com Lee e Joe. Por ironia da narrativa, o próprio personagem menciona seu destino ao alertar os colegas do perigo da missão, encerrando sua participação em um dos momentos mais desesperadores do filme.

O filme também conta com atuações profundas e memoráveis de dois outros membros do elenco, como Jesse Plemons, um soldado que reage brutalmente conforme as respostas de um interrogatório que faz o espectador tremer.
Nick Offerman, que interpreta o presidente dos Estados Unidos, com uma mistura de autoridade e ambiguidade moral, é o primeiro personagem apresentado na narrativa, ensaiando um discurso de vitória. Sua presença é sentida mesmo quando não está em cena, pois suas decisões e políticas moldam o contexto em que os personagens principais se encontram, tornando-o uma figura central no desenrolar dos eventos.
Guerra Civil não hesita em mostrar cenas gráficas e perturbadoras, utilizando uma cinematografia que mergulha o espectador na crueza do conflito.
Ao retratar um conflito nos EUA, o filme ressoa com a realidade atual, especialmente em um ano eleitoral marcado por tensões políticas crescentes. Alex Garland não poupa os EUA de seu próprio aparato bélico, apresentando uma realidade marcada por desvalorização da moeda, inflação de preços, campos de refugiados e ataques terroristas.
A mixagem de som em “Guerra Civil” é verdadeiramente excepcional, elevando a experiência do espectador a um novo nível de imersão. Desde os sons ensurdecedores dos tiroteios e explosões até os momentos de silêncio tenso, a qualidade do som mantém o público totalmente envolvido no filme.
Os efeitos sonoros surpreendem e assustam, transmitindo a intensidade e o caos da guerra de forma visceral. A trilha sonora de “Guerra Civil” não apenas complementa a narrativa, mas também adiciona uma camada extra de complexidade e ironia à história.
Com músicas icônicas que marcam e trazem um tom fora da realidade da guerra, o filme brinca com a dualidade entre a aparente normalidade e a brutalidade do conflito. Essas músicas contrastam com as cenas de violência e caos, criando uma tensão adicional e destacando a desconexão entre a guerra e aqueles que tentam ignorá-la.
Ao destacar que situações semelhantes ocorrem em outras partes do mundo, o filme provoca reflexões sobre conflitos globais e a indiferença das pessoas em regiões não afetadas.
O diretor omite informações intencionalmente, desafiando o espectador a refletir sobre a ética do jornalismo e a responsabilidade de registrar eventos violentos, tornando-se também uma aula para aqueles que desejam seguir na carreira de jornalismo e uma lição para aqueles que por muitas vezes atualmente se colocam em posição de desvalorizar a profissão.
Mesmo que você entenda ou demonstre pouco interesse em filmes como este, aceite o convite de assistir ao filme pelo prazer de vivenciar uma história que utiliza muito bem todos os recursos estéticos, visuais, sonoros e intrínsecos de uma guerra onde o inimigo está em todos os lugares.
Guerra Civil estreia nos cinemas no dia 18 de abril.
Crítica produzida a partir de cabine de imprensa à convite da Diamond Films Brasil.
