Entre lembranças que desaparecem e laços que resistem, o filme brasileiro emociona com uma história de amor e liberdade. Leia a crítica completa de Feito Pipa.
Feito Pipa encontra no contraste irreverente entre uma avó e seu neto a força de uma história delicada, divertida em alguns momentos e profundamente dolorosa em outros. Os dois vivem em harmonia, cercados de amor e cumplicidade, mas enfrentam movimentos opostos: enquanto um tenta esquecer as próprias dores, a outra luta para continuar se lembrando. É nessa relação que o filme constrói sua maior beleza.
A história acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino de 12 anos que vive com a avó, Dona Dilma (Teca Pereira), em uma pequena comunidade do sertão cearense. Apaixonado por futebol, criativo e cheio de personalidade, ele é um retrato da liberdade, inclusive na maneira como se expressa e descobre seus afetos. O ambiente parece distante das grandes cidades e da influência capitalista mais evidente, mas não está livre de preconceitos, cobranças e personagens quase antagonistas, que tentam impor suas próprias regras.

Dentro de casa, entretanto, Gugu encontra algo precioso: a possibilidade de ser quem é. Dona Dilma, uma professora aposentada, não se incomoda com sua maneira de se vestir ou com seus gostos. Os dois se divertem com as mesmas coisas, compartilham segredos e cuidam um do outro, numa convivência que não depende de grandes declarações para demonstrar o amor entre eles. O filme é especialmente bonito quando permite que essa intimidade apareça nas situações mais simples.
Isso não significa que Gugu seja sempre uma criança fácil. Ele é doce, mas também pode ser grosso, impulsivo e difícil de compreender. Às vezes, parece não saber por que reage daquela forma, como se carregasse sentimentos que ainda não consegue organizar. Aos poucos, a história revela o peso de uma família marcada pela ausência trágica da mãe e pela distância do pai, Batista (Lázaro Ramos), cuja presença representa expectativas que o menino não consegue, e nem deveria precisar, atender.

Enquanto Gugu tenta conviver com aquilo que gostaria de esquecer, Dona Dilma começa a perder o contato com algumas lembranças. Pequenas confusões se tornam mais frequentes, e a realidade passa a se misturar com impressões e imagens que só ela parece enxergar. Há uma tristeza muito particular nessa transformação, justamente porque ela continua sendo a mesma avó carinhosa, divertida e acolhedora, mesmo quando já não consegue acompanhar tudo ao seu redor.
O medo de Gugu não está apenas na possibilidade de perder essa companhia, mas também na ameaça de ser separado do único lugar em que se sente aceito. A perspectiva de viver sob os cuidados do pai traz uma criação diferente, atravessada por regras e preconceitos que se manifestam até em exigências aparentemente pequenas, como não usar brincos ou maquiagem. São proibições simples na aparência, mas enormes para uma criança que está descobrindo sua identidade.

A paisagem também participa da história. Com a estiagem, as águas da barragem recuam e revelam as ruínas de uma cidade antes submersa, como se o passado insistisse em reaparecer quando parecia esquecido. É uma imagem que conversa diretamente com a memória de Dona Dilma e com aquilo que Gugu tenta compreender sobre sua família, dando ao cenário uma importância muito além de servir como pano de fundo.
E há, claro, a pipa do título. O passado parece suspenso no ar como uma delas, preso por um fio que o mantém visível, ainda que às vezes seja deixado de lado. Em outros momentos, esse fio se rompe, a pipa cai, desaparece entre os galhos de uma árvore ou se perde entre as ruínas. A metáfora é simples, mas funciona muito bem para falar de lembranças, vínculos e da dificuldade de segurar aquilo que começa a escapar.

A direção de Allan Deberton, a partir do roteiro de André Araújo, valoriza essa sensibilidade sem transformar o sertão em um lugar definido apenas pelo sofrimento. Há cor, afeto, humor e vida na maneira como o filme observa seus personagens. Yuri Gomes e Teca Pereira sustentam a relação central com naturalidade, enquanto Lázaro Ramos dá presença a um pai que, mesmo distante, exerce influência decisiva sobre o futuro do filho.

Feito Pipa deve tocar especialmente quem já acompanhou a mudança dolorosa de alguém querido e conhece o sentimento de uma separação imposta pela necessidade de cuidados. Mas sua emoção não depende apenas dessa identificação. Ao mostrar a beleza de uma infância criada pela avó, livre de tantas imposições, o filme lembra que amar alguém também é permitir que essa pessoa exista como é. E talvez seja isso que torne tão difícil aceitar quando o fio que une duas vidas começa a se desfazer.
Feito Pipa estreia nos cinemas em 05 de novembro, com distribuição da Paris Filmes.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Paris Filmes e Espaço Z.
