Você já se perguntou o que é cinematografia?
A experiência de assistir filmes vai muito além de simplesmente observar a tela, ela é uma imersão complexa, sensorial e emocional.
E essa imersão só é possível graças a cinematografia.
Cinematografia: o olhar essencial por trás das lentes
Conhecida também como Direção de Fotografia, cinematografia é a arte e a ciência que abrange todos os aspectos visuais de uma produção cinematográfica.
Ela serve como base sobre a qual a narrativa do filme é construída e a emoção é transmitida.
No centro dessa prática está o diretor de fotografia, um profissional que é responsável pela estética visual de uma produção audiovisual.

Este diretor possui diversas funções, que vão desde estimular discussões e debates sobre a visão artística, até definir os esquemas de iluminação que darão vida à cena
Porém, a cinematografia não é apenas um conjunto de técnicas, ela exerce uma influência profunda sobre como os eventos, os personagens e as emoções são transmitidos, e recebidos pelo público.
Ela molda a percepção e a resposta emocional do espectador antes mesmo que o diálogo ou o enredo sejam plenamente processados. Escolhas técnicas de um bom diretor de fotografia, como o movimento de câmera, enquadramento, objetos de cena e iluminação, não são apenas sobre mostrar o que está acontecendo, mas como isso passa uma mensagem e te faz sentir.
O que faz parte da linguagem cinematográfica?
Agora, vamos conhecer alguns elementos da cinematografia, que juntos, criam a experiência visual e emocional de uma obra.
Movimento de câmera
É o que influencia o ritmo e a fluidez da narrativa cinematográfica. Um movimento suave pode induzir calma, em contraponto, um movimento abrupto pode gerar ansiedade.
Isso vai além de “apenas mostrar uma cena”, é sobre fazer o espectador sentir o movimento.
Alguns dos movimentos de câmera são:
• Traveling: Movimentos livres da câmera ao redor do espaço, o que permite uma exploração dinâmica do ambiente. (Exemplo de Filme: Os Bons Companheiros)
• Tracking Shot: Movimentos lineares que acompanham um personagem ou objeto, como em cenas onde alguma pessoa caminha. (Exemplo de Filme: Tár)
• Panorâmica (Pan e Tilt): Quando a câmera gira em torno do próprio eixo, sem se deslocar fisicamente. Pan se refere ao movimento feito na horizontal, e Tilt, na vertical. (Exemplo de Filme: Inception)
Enquadramento e Composição
O enquadramento é uma das decisões mais fundamentais da linguagem cinematográfica,
pois é o que decide o que será incluído no filme em cada momento, e como o espectador irá perceber aquele mundo.
Cada escolha de ângulo, plano e regra de composição é uma manipulação intencional da percepção do espectador.
Plano:
É a distância entre a câmera e o objeto filmado, alguns exemplos são:
1. Plano Aberto: Mostra o sujeito de longe, enfatizando o local.
2. Plano Médio: Enquadra o personagem da cintura pra cima. Ele foca no personagem ao mesmo tempo que revela a ambientação.
3. Close Up: Preenche a tela com uma parte específica do personagem. É utilizado para mostrar detalhes e destacar emoções intensas.

Ângulo:
É a posição da câmera em reação ao sujeito.
1. Câmera Normal: A câmera é posicionada na altura dos olhos do personagem, simulando a visão humana.
2. Câmera Alta: A câmera é posicionada acima do sujeito, fazendo com que o sujeito pareça inferior e vulnerável. Também é conhecido como Ângulo Plongée.
3. Câmera Baixa: A câmera é posicionada abaixo do sujeito, olhando para cima. Ao contrário do anterior, esse ângulo faz o personagem parecer superior. E pode ser chamado de Contra Pongee.
4. Ângulo Holandês: A câmera fica inclinada em seu eixo de rotação, resultando numa imagem desalinhada. É usado para causar sentimento de desorientação e desconforto.
Iluminação:
Ela é capaz de determinar o tom, o humor e a psicologia dos personagens e do ambiente de forma profunda. A iluminação é o que dita a atmosfera filmica, é a ferramenta que esculpe o sentimento.
Pode ser categorizada em termos de sua origem e qualidade:
Luz Natural: Cria uma atmosfera de realismo e autenticidade.
Luz Dura: Projeta sombras nítidas e bem definidas, e se origina de uma fonte de luz pequena e focada.
Luz Suave: Ela envolve os objetos e produz sombras difusas e com bordas suaves.

Vale mencionar a Iluminação de Três Pontos, uma técnica que cria uma imagem bem iluminada e com profundidade, utilizando três fontes de luz distintas:
1. Luz principal ou Key Light: ilumina o objeto principal da cena.
2. Luz de preenchimento ou Fill Light: suaviza as sombras, tornando a imagem mais natural e equilibrada.
3. Contraluz ou Back Light: Adiciona profundidade e dimensão à cena, separando o objeto do fundo.
Existem duas técnicas de iluminação amplamente utilizadas, são elas:
High Key Lighting: Cenários bem iluminados, com foco em brilho e tons brancos — sugere um tom otimista, alegre e positivo, e é frequentemente empregada em comédias como Meninas Malvadas e Superbad
Low Key Lighting: Enfatiza o contraste, as sombras e os tons escuros — cria um tom mais sério, dramático e de suspense. É muito utilizado em Filmes Noir, como Double Indemnity, em filmes de terror como Alien e em filmes dramáticos como Whiplash.

Cor:
Na cinematografia, ela é mais do que mera estética. É um elemento fundamental da narrativa visual, capaz de criar atmosferas, definir personagens e provocar emoções.
Alguns exemplos das sensações que elas nos causam são:
Cores Quentes: Transmitem paixão, perigo, energia ou um senso de alerta. (Exemplo de Filme: Beleza Americana)
Cores Frias: Podem evocar tranquilidade, tristeza, mistério, isolamento ou frieza. (Exemplo de Filme: Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças)
Profundidade de Campo (DOF)
É a faixa de distância em que os objetos em cena aparecem nítidos e em foco, enquanto o restante da imagem pode ficar desfocado. Ela é crucial para direcionar a atenção do espectador ao objeto desejado, e fornece contexto ambiental.
Existem dois tipos principais de Profundidade de Campo:
1. Profundidade de Campo Rasa (Shallow DOF): Cria um efeito onde apenas uma pequena parte da imagem está em foco, enquanto o resto aparece borrado. Isso cria uma sensação de intimidade, isola o sujeito e direciona a atenção do espectador para ele, sendo útil em retratos ou fotografia macro.
2. Profundidade de Campo Profunda (Deep DOF): Quase toda a fotografia está em foco, incluindo o primeiro plano e o fundo. É frequentemente utilizada em paisagens ou tomadas de grande angular, fornecendo mais informações sobre o ambiente e a relação do sujeito com ele.
A profundidade de campo é controlada por 3 fatores principais: Distância da Câmera ao Objeto, Abertura (f-stop) e Distância Focal da Lente.

Som
Embora a cinematográfica seja predominantemente visual, o som também nos auxilia na imersão da história. A evolução da tecnologia sonora expandiu as possibilidades para uma narrativa imersiva, apesar das limitações iniciais na mobilidade da câmera.
O som adiciona complexidade e emoção à narrativa, criando uma sensação de realismo. Se o som não é realista e meticuloso nos detalhes acústicos de uma época ou lugar, ele pode tirar o espectador da sensação de imersão.
A música e o design de som podem impactar profundamente a resposta emocional ao filme.
Além dos diálogos e da trilha sonora, o som “extracampo” – o que está fora da imagem – contribui significativamente para a atmosfera e a imersão, expandindo o universo percebido pelo espectador.
Como aprender mais sobre cinematografia assistindo a filmes?
— Parasita (Parasite, 2019)
O filme sul coreano, dirigido por Bong Joon-ho, é aclamado por sua incrível cinematografia, especialmente pelo excelente enquadramento de câmera.
O diretor usa dos enquadramentos para criar um sub texto — Utilizando de forma estratégica o espaço e a composição para sublinhar a desigualdade social.

A “coreografia” entre a câmera, os personagens e os objetos no ambiente é crucial para a construção de sentido e para a crítica social que o filme propõe.
— O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972)
A obra é considerada uma verdadeira aula de cinematografia por sua excelência em diversos aspectos técnicos e narrativos. A direção de Francis Ford Coppola, aliada à fotografia de Gordon Willis — conhecido como “O Príncipe das Sombras” — utiliza contrastes de luz e sombra para criar uma atmosfera densa e simbólica.

A famosa “luz do Dom Corleone”, um tipo de top light que escurece os olhos do ator, é um elemento fundamental que traz poder e mistério ao protagonista, realçando o que a fala esconde.
O que vem por aí no cinema?
A cinematografia pode ser considerada como o coração visual da experiência cinematográfica.
É mais do que um conjunto de técnicas, é o que nos permite sentir, e compreender profundamente a obra. E cada elemento citado, contribui para a construção de uma experiência coesa, emocionalmente ressonante e profundamente imersiva.
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Artigo escrito por Isabelly Ferreira Cardoso – sob a supervisão de Robson Netto.
