Review e o que esperar de Dona Beja: uma releitura que dialoga com o presente

Grazi Massafera lidera Dona Beja, novela que combina narrativa política, emoção e uma produção técnica rara no streaming brasileiro. Assistimos aos primeiros episódios da produção, leia abaixo nosso review e saiba o que esperar da releitura.

Dona Beja chega ao streaming não como um simples exercício de nostalgia, mas como uma releitura contemporânea que compreende o peso simbólico da personagem e opta por observá-la a partir de questões que atravessam o Brasil de hoje. Inspirada na trajetória de Ana Jacinta de São José, uma das figuras mais emblemáticas da história de Minas Gerais, a novela parte de um imaginário já conhecido pelo público para expandir o debate e reposicionar a personagem dentro de uma leitura mais ampla sobre poder, desejo e julgamento social.

Desde os primeiros momentos, fica evidente que a proposta não é repetir fórmulas nem apenas atualizar uma história consagrada. A narrativa se constrói como um drama intenso, político e emocional, colocando Beja no centro de conflitos afetivos, sociais e morais que evidenciam as contradições de uma sociedade rigidamente hierarquizada. A protagonista não surge apenas como símbolo de escândalo ou transgressão moral, mas como uma mulher que confronta sistemas de poder, questiona normas impostas e expõe hipocrisias estruturais que continuam extremamente familiares ao espectador contemporâneo.

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Imagem: Divulgação

Protagonismo feminino como eixo dramático

Um dos grandes méritos da nova Dona Beja está na forma como o protagonismo feminino atravessa toda a narrativa, não como discurso pontual, mas como motor dramático constante. A obra é povoada por mulheres complexas, contraditórias e densas, que lidam com dor, desejo, injustiça e resistência de maneiras distintas, revelando camadas emocionais que enriquecem a experiência narrativa.

A sororidade aparece de maneira orgânica, construída a partir de relações que se tensionam, se rompem e se reconstroem ao longo da história, sempre mediadas por um contexto social opressor. Essa abordagem confere profundidade às personagens e amplia o alcance da novela, que dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre liberdade, autonomia e identidade, sem recorrer a soluções fáceis ou didatismos excessivos.

Uma Beja que prende pela atuação

Se a proposta narrativa é ambiciosa, ela ganha ainda mais força na atuação de Grazi Massafera, que entrega uma Beja magnética, segura e cheia de nuances. Sua presença em cena sustenta o protagonismo com naturalidade, transitando entre vulnerabilidade e enfrentamento com precisão emocional, o que faz com que o espectador se mantenha atento não apenas ao que acontece, mas à forma como cada situação é vivida pela personagem.

Grazi constrói uma protagonista que carrega o peso simbólico da história sem se tornar refém dele, oferecendo uma interpretação madura e consciente da complexidade de Beja. Ao seu lado, David Júnior e André Luiz Miranda completam o trio central da trama, contribuindo para relações densas e carregadas de tensão dramática, enquanto o elenco de apoio reforça a sensação de uma sociedade viva, em constante conflito, que existe para além da protagonista.

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Imagem: Divulgação

Escala técnica rara para o streaming

Outro aspecto que chama atenção em Dona Beja é o escopo técnico e visual adotado pela produção, algo ainda pouco comum quando se fala em novelas desenvolvidas para o streaming. A construção de uma cidade cenográfica com 1.710 metros quadrados oferece materialidade ao universo da história, permitindo que os espaços não funcionem apenas como pano de fundo, mas como elementos ativos da narrativa.

O figurino, composto por mais de três mil peças desenvolvidas especialmente para a obra, reforça esse cuidado com a ambientação histórica e contribui para a construção psicológica dos personagens. Cada escolha estética comunica posição social, desejo, repressão ou liberdade, funcionando como uma extensão emocional da narrativa e fortalecendo a imersão do público naquele contexto.

Fotografia impecável como narrativa silenciosa

A qualidade da fotografia se impõe como um dos grandes destaques de Dona Beja, funcionando como uma narrativa silenciosa que acompanha e potencializa o drama. Elegante e precisa, ela não está ali apenas para embelezar a cena, mas para reforçar estados emocionais, relações de poder e mudanças internas dos personagens ao longo da história.

Dona Beja estreia em 2 de fevereiro na HBO Max.
Dona Beja estreia em 2 de fevereiro na HBO Max. Imagem: Divulgação.

A luz é utilizada com inteligência para marcar opressão ou liberdade, enquanto os enquadramentos ajudam a estabelecer hierarquias e tensões entre os personagens. A paleta de cores contribui para diferenciar momentos de conflito e introspecção, resultando em uma fotografia que eleva o projeto e o aproxima de produções de alto nível, sem abrir mão de uma identidade visual claramente brasileira.

Uma história que provoca e incomoda

Dona Beja assume com clareza seu desejo de provocar debate e não esconde que sua narrativa se propõe a tocar em temas sensíveis como racismo, moralidade, sexualidade, poder e hipocrisia social. Ao optar por enfrentar essas questões de maneira direta, a novela aceita o risco de dividir opiniões, algo que faz parte da própria essência da personagem histórica que inspira a obra.

A dramaturgia entende o confronto como elemento central e evita respostas fáceis ou consensos confortáveis. O resultado é uma história que confia no impacto de suas escolhas narrativas e aposta na capacidade do público de refletir, discutir e reinterpretar os acontecimentos apresentados em cena.

Um dos pontos mais comentados e reforçados durante coletiva de imprensa é que Dona Beja não é um remake, mas uma releitura. O autor chegou a brincar com isso ao explicar que não se trata de “mexer” na novela antiga, e sim de olhar para a mesma mulher com os olhos de 2026, como se o “horizonte à frente dela fosse muito maior agora”.

Produção e bastidores

Produzida pela Floresta e licenciada pela Warner Bros. Discovery, Dona Beja conta com texto de Daniel Berlinsky e António Barreira, com colaboração de Maria Clara Mattos, Cecília Giannetti, Clara Anastácia e Ceci Alves. A direção geral é assinada por Hugo de Sousa, com um time de diretores que garante unidade estética e narrativa ao longo dos quarenta capítulos da novela.

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Imagem: Divulgação

Por que Dona Beja merece atenção

No conjunto, Dona Beja se afirma como uma novela que prende a atenção pela qualidade de seus cenários, pela força da história, pela construção consistente dos personagens e, principalmente, pela atuação de Grazi Massafera. Trata-se de uma obra que respeita sua origem, mas não se limita a ela, atualizando o discurso e ampliando o olhar para questões que seguem extremamente relevantes.

Para quem busca uma narrativa envolvente, bem produzida e disposta a provocar reflexão, Dona Beja surge como um dos projetos mais interessantes da dramaturgia brasileira recente, reafirmando o papel da novela como espaço de debate, emoção e interpretação da realidade social.

Quando estreia?

A novela estreia globalmente em 2 de fevereiro na HBO Max, com a disponibilização dos cinco primeiros capítulos logo na data de lançamento, com novos capítulos sendo lançados semanalmente. A produção terá 40 capítulos.

Com informações da assessoria e coletiva de imprensa.

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Robson Netto

Robson é o criador do Que Tar. Nascido em Ponta Grossa, a verdadeira capital da Rússia Brasileira. Enquanto não for processado, vai tentar trazer muito conteúdo e informações cheias de humor.

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