A nova aposta da Apple Films, com distribuição pela Warner Bros. Pictures Brasil, chega acelerando direto para os corações dos fãs de automobilismo e até para quem nunca foi muito ligado em Fórmula 1, como é o meu caso. Leia a crítica abaixo.
F1: O Filme é um espetáculo visual que tenta mesclar adrenalina com emoção, velocidade com redenção… mas talvez tivesse se beneficiado de uma parada estratégica no boxe antes da bandeirada final.
Vamos começar com sinceridade: Fórmula 1 nunca foi exatamente meu esporte de fim de semana. Cresci ouvindo o nome de Ayrton Senna ecoar como lenda, mas confesso que nunca acompanhei uma partida. E mesmo assim, fui surpreendido. Talvez por isso o impacto tenha sido ainda maior. A direção de Joseph Kosinski, que já tinha nos presenteado com Top Gun: Maverick, agora nos leva direto para o cockpit, sentindo cada curva como se fosse a última.

A trama gira em torno de Sonny Hayes (Brad Pitt), um ex-piloto de F1 que abandonou as pistas há duas décadas após um acidente, e que agora retorna não apenas para guiar um carro, mas para orientar a nova promessa do esporte: Joshua Pearce (Damson Idris). A escuderia fictícia Apex GP, em ruínas e à beira do colapso, é o pano de fundo perfeito para uma narrativa de superação, aprendizado e, claro, muita velocidade.

Hayes é aquele tipo de personagem que só o tempo constrói: experiente, sarcástico, astuto e sacana. Nas primeiras cenas, já vemos seu talento em Daytona, numa corrida de 24 horas onde ele mostra que, mesmo fora dos holofotes, ainda tem o instinto de campeão. Ele não é o mais rápido, nem o mais popular, mas é o cara que sabe quando esperar, quando atacar e quando arriscar. Um “jogador de xadrez” em alta velocidade.
A dinâmica entre Sonny e Ruben (vivido pelo sempre excelente Javier Bardem) é um dos trunfos do filme. Ruben é ex-companheiro de pista, agora dono da Apex GP, desesperado para salvar sua equipe da falência técnica e moral. Ele vê em Hayes a última esperança. A aposta é arriscada, mas funciona como ponto de partida para a transformação não só da equipe, mas também de seus integrantes.

Joshua Pearce, por outro lado, é talento bruto. Jovem, impetuoso, e com o ego inflado pela fama precoce e pelas festas que o cercam fora das pistas, ele não está pronto para ser líder, pelo menos, não no começo. A chegada de Hayes, inicialmente recebida com desprezo, aos poucos se torna um espelho e, mais tarde, uma bússola. Não é só uma história de mentor e pupilo, mas de um embate de gerações e visões sobre o que é ser piloto.
Visualmente, o filme é um espetáculo. Kosinski não brinca em serviço: câmeras reais acopladas nos carros, filmagens em meio a Grandes Prêmios de verdade, inclusive no GP da Inglaterra, e participações especiais de pilotos reais como Verstappen, Leclerc, Sainz e Norris fazem a linha entre ficção e realidade praticamente desaparecer.
É como se estivéssemos no paddock, ouvindo o ronco dos motores direto no peito. E quando a trilha sonora de Hans Zimmer entra em cena, a tensão sobe como a rotação de um motor prestes a explodir.

Cada curva, cada pit stop, cada ultrapassagem parece um evento grandioso. Há momentos em que o espectador sente a respiração prender, como se estivesse, literalmente, dentro do capacete de Sonny quando vem aquela sensação de liberdade que só faz sentido nos momentos finais.
Mas nem tudo são voltas perfeitas.
Apesar da intensidade, o filme peca justamente onde deveria ser mais ágil: no tempo. Com duas horas e meia de duração, F1 se alonga além da conta. Há momentos em que a narrativa gira em círculos, especialmente nas cenas fora das pistas. A repetição de situações e algumas falas superficiais e briguinhas clichês acabam freando a emoção construída nas corridas.
No entanto, há algo que o filme entrega com precisão cirúrgica: o sentimento. A conexão emocional entre Sonny e Joshua vai se construindo em pequenos gestos, olhares, provocações (e muitas mesmo). Não é um vínculo imediato, mas quando acontece, é genuíno. E é nesse ponto que a narrativa resgata a essência dos grandes filmes esportivos: a ideia de que o verdadeiro desafio não está apenas nas curvas do circuito, mas nas decisões que tomamos fora dele.

E se você, assim como eu, tem uma memória afetiva com Senna, prepare-se. A menção ao piloto brasileiro surge com elegância e reverência, em pelo menos três momentos. Inclusive na menção de que Sonny dividiu a pista com Senna. Uma liberdade poética? Sim. Mas que emociona e carrega um senso de homenagem que, honestamente, funciona.

O tom de Lewis Hamilton na produção é perceptível. Como produtor executivo, ele contribui com todos os toques e garante que o filme não traia a alma da F1. Por mais que algumas viradas pareçam roteirizadas demais, há sempre um pé na realidade, e o resultado é um equilíbrio interessante entre espetáculo cinematográfico e respeito ao esporte.
Brad Pitt carrega o filme com carisma de sobra, mesmo com a pose de machão, mas o que impressiona mesmo é sua entrega física e emocional. Ele convence como piloto veterano não só pela postura e olhar experiente, mas pela intensidade nas cenas de corrida, e sem parecer uma caricatura de herói. Dá pra sentir que ele não está ali só como astro de Hollywood, mas como alguém que respeita o esporte e quer contar uma boa história.

Outro ponto que merece destaque é a forma como o filme mergulha nos bastidores de uma equipe de Fórmula 1. Mais do que mostrar pilotos acelerando em pistas lendárias, F1 revela o funcionamento interno da Apex GP: desde as reuniões táticas antes das corridas até o trabalho quase invisível, mas absolutamente vital, dos engenheiros, mecânicos, estrategistas e analistas de dados. Cada função é tratada com respeito e importância.
O filme dá uma boa noção de como decisões tomadas em salas de reunião, ou até na frente de um computador, analisando dados que podem mostrar o diferencial entre a vitória e o fracasso. O esforço para ganhar milésimos de segundo é retratado com precisão quase cirúrgica, mostrando que, na F1, tudo importa: o ângulo da asa, o tipo do pneu, o vento contra e até a sincronia da equipe no pit stop. Isso ajuda o espectador a entender que correr não é apenas sentar no cockpit e pisar fundo, é o resultado de um trabalho coletivo de altíssimo nível técnico e emocional.

Ainda assim, não dá pra negar: F1 é mais bonito do que profundo. É como um carro clássico, polido, reluzente… mas com o tanque emocional meio vazio. O roteiro, assinado por Ehren Kruger e Joseph Kosinski, tem uma falta de diálogos mais afiados e de arcos mais densos.
É impossível ignorar o volume de marcas estampadas em cada segundo do filme, dos uniformes aos carros, dos boxes e até das garrafas de cerveja zero. F1 também funciona, sem disfarces, como uma vitrine para os patrocinadores do esporte. Em alguns momentos, isso salta demais aos olhos e quebra um pouco a imersão, como se estivéssemos assistindo a um comercial estendido. Mas, sejamos justos: esse excesso não foge da realidade do automobilismo. A Fórmula 1 sempre foi um espetáculo movido a publicidade.
Mesmo assim, o filme entrega o que promete: velocidade, emoção e entretenimento de primeira linha. Fãs de corrida vão pirar com as participações reais, as referências técnicas e os bastidores. Já os espectadores casuais provavelmente sairão do cinema com vontade de pesquisar mais e entender por que o esporte é tão apaixonante para tanta gente.
F1 O Filme é um retrato cinematográfico de um universo onde cada segundo conta, onde decisões são tomadas em milésimos e onde, mesmo com toda a tecnologia, o fator humano ainda é decisivo. É um filme sobre ultrapassar limites, mesmo que, vez ou outra, ele próprio derrape nos seus.
Vale o ingresso? Vale muito. Principalmente se você curte ver uma história que mistura emoção, barulho de motor e aquele cheiro imaginário de borracha queimada. Mas já vá sabendo: o filme não corre contra o tempo, ele faz o tempo correr com ele.
F1 O Filme estreia nos cinemas no dia 26 de junho.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Warner Bros Pictures Brasil.
