Crítica | Digger escava o genial poder de contar uma boa história

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Digger é cinema em sua forma puríssima: uma história sobre poder que entende perfeitamente o poder de contar uma boa história. Sob a direção arrebatadora de Alejandro G. Iñárritu, Tom Cruise entrega uma de suas atuações dramáticas mais marcantes em um filme que escava as narrativas, os enquadramentos e as relações de poder até encontrar algo fascinante por baixo de cada camada. Brilhante, provocador e impossível de ignorar, Digger prende o espectador até o último crédito. 

Leia a crítica completa abaixo.

Digger é uma das melhores formas de entender que contar uma história também é um jogo de representações, enquadramentos, ângulos e narrativas. O novo filme de Alejandro G. Iñárritu, aclamado por O Regresso (2015), Birdman (2014) e Amores Brutos (2000), transforma essa ideia em parte essencial de sua própria construção, entregando uma experiência que prende o espectador na cadeira do início aos créditos finais e, ao mesmo tempo, propõe uma reflexão sobre quem controla as histórias, de que maneira elas são contadas e quais poderes estão por trás delas.

Imagem promocional de Digger (2026)
Divulgação: Warner Bros. Pictures / via TMDB.

Esta talvez seja uma das críticas mais difíceis de desenvolver justamente porque qualquer avanço maior sobre a trama pode estragar parte da experiência. Nenhum crítico deveria entregar spoilers sobre o filme que está analisando, embora normalmente seja possível apresentar o arco narrativo inicial e acompanhar seu desenvolvimento até determinado momento. Com Digger, entretanto, existe um impasse maior, então a melhor saída é recorrer apenas ao ponto de partida divulgado oficialmente.

O filme acompanha o homem mais poderoso do mundo, que embarca em uma missão frenética para provar que é o salvador da humanidade antes que o desastre provocado por ele mesmo destrua o planeta. A partir daí, Iñárritu constrói uma alegoria sobre poder, responsabilidade e, principalmente, sobre a maneira como narrativas podem moldar a percepção da realidade.

Antes mesmo de falar sobre aquela que talvez seja uma das maiores atuações dramáticas de Tom Cruise nas telonas, é preciso reconhecer como Iñárritu conduz essa experiência de maneira genial e arrebatadora. Cada escolha parece dialogar diretamente com aquilo que Digger pretende discutir. O filme funciona praticamente como um ensaio sobre a busca pelo poder econômico, político e social, mostrando como essas forças acabam entrelaçadas na mesma teia e como o poder de contar histórias, ou determinar quais narrativas serão ouvidas, pode ser tanto resultado quanto causa desse próprio poder.

Imagem promocional de Digger (2026)
Divulgação: Warner Bros. Pictures / via TMDB.

Tom Cruise entrega um Sr. Digger Rockwell que carrega o reflexo de um histórico familiar marcado por poder, decisões, controle e exploração. O personagem funciona como um arquétipo do poder econômico e de sua relação com a sociedade, alguém que parece estar acima de praticamente todos ao seu redor. Talvez a única exceção seja Maggie, sua querida gata idosa e doente, que já desfalece enquanto é mimada com atum da melhor qualidade. É um detalhe quase absurdo diante de tudo o que acontece, mas que ajuda a revelar bastante sobre Digger sem que o filme precise explicar demais.

O elenco ao redor de Cruise também sustenta muito bem essa estrutura. John Goodman vive o presidente dos Estados Unidos, Presidente Compson, uma figura aparentemente mais preocupada consigo mesma do que com aqueles que deveria proteger, funcionando muito bem como representação do poder político. Riz Ahmed, como Dr. Ganesh, entrega outra das melhores atuações do filme, principalmente porque representa alguém poderoso pelo conhecimento, mas que ainda precisa se dobrar para ser valorizado por quem possui o poder econômico.

Imagem promocional de Digger (2026)
Divulgação: Warner Bros. Pictures / via TMDB.

Sandra Hüller também se encaixa perfeitamente como Emma, irmã de Digger, sendo uma ótima adição a um elenco que se completa muito bem. Jesse Plemons, Emma D’Arcy e Michael Stuhlbarg aparecem entre os demais destaques, ajudando a construir esse universo em que os personagens parecem ocupar posições muito específicas dentro dessas relações de poder. O roteiro é assinado por Iñárritu ao lado de Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Sabina Berman.

Outro elemento impossível de ignorar é a trilha sonora de Cosmo Sheldrake. Ela é completamente impactante e parece fazer o filme avançar junto com as imagens, quase como se a própria obra se desenrolasse por causa da música. Existe uma força orquestral muito presente nessa condução, como se houvesse um maestro guiando não apenas a trilha, mas também a sensação de urgência e grandeza da história. Não funciona simplesmente como complemento, mas como parte ativa da experiência.

Imagem promocional de Digger (2026)
Divulgação: Warner Bros. Pictures / via TMDB.

A fotografia de Emmanuel Lubezki participa diretamente dessa mesma construção narrativa. Os enquadramentos não são apenas escolhas visuais, porque dizem muito sobre a maneira como o filme pretende apresentar cada personagem. No jornalismo e nos estudos de mídia, fala-se bastante sobre as teorias do agendamento e do enquadramento, sobre como escolher o que mostrar e de que forma mostrar também influencia a percepção da realidade, e Digger trabalha justamente com essa lógica. Em muitos momentos, personagens ligados ao poder, seja o próprio Digger ou as figuras políticas que aparecem na história, são filmados de baixo para cima, reforçando visualmente uma posição de superioridade.

Imagem promocional de Digger (2026)
Divulgação: Warner Bros. Pictures / via TMDB.

Ao longo de suas duas horas, Digger apresenta muitas camadas e se beneficia de uma equipe de produção empenhada em transformar forma e conteúdo em uma coisa só. Direção, roteiro, fotografia, montagem, trilha e atuações caminham na mesma direção, reforçando a ideia de que contar uma história nunca significa apenas relatar acontecimentos. Também significa escolher quem aparece, de onde se olha, o que fica de fora e, principalmente, quem possui poder suficiente para controlar essa narrativa. Talvez seja justamente por isso que Digger consiga manter o espectador tão preso à cadeira até o último crédito.

DIGGER estreia nos cinemas em 01 de outubro, com distribuição da Warner Bros. Pictures Brasil.

Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Warner Bros Pictures e Espaço Z.

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Robson Netto

Robson é o criador do Que Tar. Nascido em Ponta Grossa, a verdadeira capital da Rússia Brasileira. Enquanto não for processado, vai tentar trazer muito conteúdo e informações cheias de humor.

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