Crítica | 100 Noites de Desejo e nenhuma paciência pra homem medroso

100 Noites de Desejo é um filme que se apresenta, antes de tudo, como uma metáfora sobre o silenciamento da mulher através das histórias, e essa proposta fica evidente desde os seus primeiros movimentos.

Adaptado da graphic novel feminista 100 Nights of Hero criada por Isabel Greenberg em 2016, o longa dirigido e roteirizado por Julia Jackman parte de uma inspiração livre em As Mil e Uma Noites mas inverte o eixo tradicional desse tipo de narrativa para colocar no centro o poder da palavra feminina, o amor entre duas mulheres e a resistência diante de uma sociedade construída para controlar seus corpos, seus desejos e até sua imaginação.

A história começa em uma espécie de mito fundador, quando uma deusa chamada Kiddo (Safia Oakley-Green) cria o mundo como um jardim pacífico e o deixa para seus habitantes. Essa imagem inicial já carrega algo bonito e simbólico, quase como se o filme apresentasse um mundo que nasceu para ser livre, sensível e fértil. Mas logo vem a interferência de Birdman (Richard E. Grant), pai de Kiddo, que impõe ordem, cria regras e estabelece as bases de uma sociedade rígida, especialmente em relação ao casamento, ao gênero e ao papel que as mulheres devem ocupar.

A partir daí, o filme deixa claro que não está interessado apenas em contar uma história de época ou de fantasia, mas em observar como certas estruturas de poder se sustentam justamente pelo controle das narrativas.

Nesse mundo comandado por leis duras, Agnes se casa e engravida de uma filha, Hero. Vinte e sete anos depois, a trama se desloca para Cherry, vivida por Maika Monroe, uma mulher presa em um casamento não consumado com Jerome. Embora exista uma pressão constante da família dele para que ela produza um herdeiro, Jerome evita consumar a relação, e Cherry acaba colocada em uma situação brutal: ela tem cem dias para engravidar ou será condenada à morte. É uma premissa forte, incômoda, e o filme trabalha essa violência sem precisar transformá-la em espetáculo. O peso está menos no choque imediato e mais na naturalidade com que aquela sociedade aceita esse absurdo.

elenco 100 noites de desejo
Divulgação: Paris Filmes

Jerome, então, confia seu dilema a Manfred, interpretado por Nicholas Galitzine, que sugere uma forma de testar a lealdade de Cherry. Ele tentará seduzi-la durante cem noites. Caso consiga, ficará com as propriedades de Jerome. Caso falhe, deverá gerar uma criança e apresentá-la como herdeira do marido. O acordo entre os dois homens é cruel justamente porque transforma Cherry em objeto de aposta, desejo, linhagem e propriedade. Sua vontade parece ser o único elemento que ninguém consulta. Quando Jerome deixa o castelo sob o pretexto de negócios, Cherry permanece ali com Manfred, os guardas e sua criada Hero, interpretada por Emma Corrin.

Apostas Masculinas, Desejos Femininos e Outras Péssimas Ideias Patriarcais em 100 Noites de Desejo
Divulgação: Paris Filmes

É nesse convívio forçado que o filme encontra sua parte mais interessante. Manfred tenta seduzir Cherry, mas ela resiste e encontra em Hero uma possibilidade de fuga, ainda que inicialmente essa fuga aconteça pela palavra. As duas criam um código secreto: sempre que Cherry quiser escapar da presença de Manfred, Hero começa a contar histórias. Essa escolha aproxima o filme diretamente de sua inspiração em As Mil e Uma Noites mas aqui o gesto ganha outro sentido, porque contar histórias não é apenas adiar a morte ou distrair o poder masculino, é preservar uma memória que tentaram apagar.

A primeira grande narrativa contada por Hero envolve três irmãs, Mina, Caterina e Rosa, que vivem em uma sociedade onde ler e escrever é proibido às mulheres. Após a morte da mãe, o pai se prepara para casá-las, mas elas praticam secretamente a leitura e a escrita. Rosa acaba se casando, e quando sua escrita é descoberta pelo marido, ela é acusada de transgressão. As irmãs são presas e condenadas à morte, preferindo se jogar de um penhasco a se submeter. O pai recupera os corpos, encontra os escritos escondidos e registra a história delas, que passa a se espalhar. É uma passagem muito importante porque resume bem o coração do filme: quando uma mulher escreve, ela deixa de ser apenas aquilo que os outros dizem que ela é.

A partir daí, 100 Noites de Desejo vai se tornando cada vez mais uma obra sobre mulheres tentando existir dentro de espaços que foram desenhados para limitá-las. Cherry se vê angustiada com a aproximação do prazo para engravidar, com a ausência de Jerome e com a pressão ao redor de seu corpo. Manfred segue insistindo em sua sedução, enquanto a tensão entre ele e Hero cresce. Ao mesmo tempo, Cherry começa a perceber em Hero algo que vai além da companhia e da cumplicidade. Quando ela descobre que Hero sabe ler e escrever, o conflito entre as duas ganha novas camadas, porque aquilo que era segredo passa a ser também ameaça, desejo e revelação.

Maika Monroe e Emma Corrin conduzem a experiência dramática com uma química muito bonita. As duas se completam em cena porque Cherry e Hero parecem existir em ritmos diferentes, mas acabam se encontrando justamente nessa diferença. Cherry carrega a ansiedade de quem está presa a uma sentença, enquanto Hero tem uma presença mais silenciosa, observadora e misteriosa, como alguém que guarda dentro de si muitas histórias antes mesmo de contá-las. A relação entre elas é o ponto emocional mais forte do filme, não apenas pelo romance que se desenha, mas pela forma como uma desperta na outra uma nova compreensão de mundo.

Quando Cherry, tomada pela solidão e pela necessidade de intimidade, beija Hero, o filme assume com mais clareza sua dimensão afetiva e também política. A homossexualidade aqui não aparece como um simples elemento de choque ou proibição, mas como uma forma de afeto que confronta diretamente a lógica daquele sistema. Em um mundo onde o casamento é obrigação, a gravidez é dever e a mulher é medida pela sua utilidade dentro da linhagem masculina, amar outra mulher passa a ser também um gesto de desobediência.

O retorno de Jerome reorganiza a tensão da narrativa. No momento em que Cherry aceita conceber um filho com Manfred para cumprir a exigência imposta a ela, Jerome reaparece e revela que as cem noites terminaram. Ele declara Manfred vencedor da aposta e ordena que Cherry seja confinada até que acusações possam ser feitas contra ela. Manfred, por sua vez, se opõe e afirma que pretende permanecer com Cherry. A situação cresce de forma quase teatral, com cada personagem revelando sua posição diante daquele jogo cruel. Mas é Hero quem realmente altera o sentido da cena ao assumir responsabilidade por ter influenciado Cherry por meio das histórias proibidas.

critica de 100 noites de desejo
Divulgação: Paris Filmes

Nesse momento, Cherry declara seu amor por Hero e afirma que aquelas histórias mudaram a forma como ela entende a própria vida. É uma declaração simples, mas poderosa, porque mostra que a palavra teve efeito concreto. As histórias não foram apenas distração, elas reorganizaram o olhar de Cherry sobre si mesma. Jerome reage acusando Hero de bruxaria e exigindo punição, repetindo um mecanismo histórico muito reconhecível: quando uma mulher sabe demais, deseja demais ou fala demais, o poder tenta transformá-la em ameaça.

A revelação sobre a origem de Hero amplia ainda mais essa camada. Ela conta que sua mãe, Agnes, participou de um grupo dedicado a preservar histórias através de tapeçarias. Mais tarde, Wilmot, uma das integrantes, entrou no castelo como criada e escondeu histórias pelo prédio. Hero chegou ao castelo também como criada para recuperar esses relatos após a morte de Wilmot, mas acabou permanecendo ali depois de encontrá-los e continuou escrevendo por conta própria.

Essa costura entre mães, filhas, criadas, tapeçarias e textos escondidos reforça a ideia de que a memória feminina sobrevive mesmo quando é empurrada para os cantos, para os quartos, para os tecidos e para os espaços invisíveis da casa.

Visualmente, o filme tem um contraste curioso. Ao mesmo tempo em que trabalha com cores quentes e imagens muito confortáveis aos olhos, existe um tom frio na condução da narrativa. Essa frieza combina com a rigidez daquele mundo, mas também faz com que, em alguns momentos, o filme pareça dar uma enrolada.

A atmosfera é bonita, a direção de arte chama atenção e as cores ajudam a contar a história, mas o ritmo poderia ser um pouco mais envolvente em certos trechos. Ainda assim, essa escolha visual cria uma experiência bastante própria, quase como se o filme fosse um conto antigo sendo folheado com calma demais, mas com páginas bonitas o bastante para manter o interesse.

nicolas 100 noites de desejo
Divulgação: Paris Filmes

A direção de Julia Jackman organiza bem esse universo de castelo, regras e histórias escondidas, apostando menos em grandes explosões dramáticas e mais em uma construção simbólica. O roteiro não parece buscar uma inovação absoluta, até porque a inspiração em narrativas clássicas é assumida, mas encontra força na maneira como reposiciona essas estruturas para falar de feminismo, apagamento e desejo.

O filme importa agora justamente porque ainda existem muitas formas de silenciamento de minorias, muitas delas mais discretas, mas ainda profundamente presentes.

100 Noites de Desejo é um filme bom, visualmente confortável e tematicamente forte. Talvez não seja uma obra perfeita em ritmo, e há momentos em que a narrativa poderia avançar com mais firmeza, mas sua proposta é clara e sua sensibilidade compensa parte dessa irregularidade.

É um daqueles filmes que funcionam bem para assistir sob as cobertas, não exatamente por ser leve, mas porque tem uma beleza acolhedora no modo como apresenta sua fantasia, suas cores e suas personagens.

A impressão final é positiva: uma história sobre mulheres que contam histórias para não desaparecer, sobre o amor como forma de resistência e sobre como, às vezes, sobreviver começa simplesmente quando alguém decide escrever.

100 Noites de Desejo chega aos cinemas brasileiros no dia 04 de junho.

Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Paris Filmes e Espaço Z.

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Robson Netto

Robson é o criador do Que Tar. Nascido em Ponta Grossa, a verdadeira capital da Rússia Brasileira. Enquanto não for processado, vai tentar trazer muito conteúdo e informações cheias de humor.

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