Crítica | ARCO é uma linda história de amizade, laços afetivos e viagem no tempo

Uma animação tocante sobre amizade e viagem no tempo: um garoto do ano 2932 cai em 2075 e encontra Iris, enquanto um incêndio florestal e a tecnologia moldam seus laços. Leia a crítica de ARCO, animação indicada ao Oscar 2026.

ARCO é daqueles filmes que parecem conversar direto com a criança que ainda mora escondida em algum cantinho da gente, não porque ele apela para nostalgia ou para um sentimentalismo exagerado, mas porque entende muito bem como traduzir em imagem, ritmo e pequenas escolhas da história aquela sensação de descoberta que só existe quando tudo ainda é novo, estranho e fascinante.

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Divulgação: MUBI e Mares Filmes

A animação dirigida por Ugo Bienvenu acompanha um garoto que viaja no tempo chamado Arco, que aterrissa acidentalmente em 2075 e encontra Iris, uma menina criativa da mesma idade, e a partir desse encontro simples, quase casual, o filme vai costurando uma história sobre amizade, laços, escolhas e consequências, sempre com um jeito delicado de apresentar ideias grandes sem precisar gritar o tempo todo. E vamos combinar, que escolha genial de nomes para os personagens.

Logo de cara, ARCO chama atenção por um detalhe que parece pequeno, mas define a experiência inteira: o estilo visual.

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Divulgação: MUBI e Mares Filmes

Existe uma beleza muito particular na forma como a animação se movimenta, como se a imagem estivesse levemente desacelerada, quase com menos quadros por segundo, criando uma sensação que lembra um stop motion intencional, não por ser duro ou travado, mas por ter um ritmo próprio, quase como se cada gesto fosse cuidadosamente colocado ali para aumentar o encantamento.

É o tipo de escolha que prende antes mesmo da trama engrenar, porque ali já dá pra entender rapidamente que o filme quer ser sentido, quer ser observado com calma, quer que a gente entre num estado de atenção que não é o da correria comum das animações mais barulhentas e aceleradas.

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Divulgação: MUBI e Mares Filmes

A história começa em 2932, quando Arco, com apenas dez anos, vive uma frustração que parece gigante para a idade dele e que, de algum jeito, também soa muito humana, porque ele morre de inveja da própria família.

Seus pais e sua irmã viajam no tempo como quem vai ao supermercado, com naturalidade, com facilidade, como se fosse um hábito de rotina, enquanto ele é obrigado a esperar completar doze anos para ter esse direito, porque crianças não podem viajar no tempo antes disso.

O filme não tenta explicar nada ali, mas para voar e viajar no tempo é necessário usar um traje feito de uma capa que brilha como um arco-íris e um diamante especial que vai preso na testa do portador. A prática, ao que parece ali, é feita para coletar artefatos do passado, plantas medicinais, histórias perdidas.

E é aí que o filme encontra um motor emocional muito eficiente, já que, no fundo, não é só sobre viagem no tempo, é sobre aquela sensação infantil de estar sempre do lado de fora, de ver o mundo acontecer na frente dos olhos e ouvir que a sua vez ainda não chegou. E já vemos ali que o menino tem muito a aprender.

Impaciente, Arco decide quebrar as regras, rouba a capa e a pedra preciosa da irmã e tenta viajar sozinho para a era dos dinossauros, voando como já viu os adultos fazerem.

A cena tem um charme específico porque ela não pinta Arco como um rebelde “cool” nem como um menino perfeito e obediente, e sim como alguém que age no impulso, cheio de desejo e convicção, sem medir o tamanho do risco, como criança faz quando acredita que o mundo vai se dobrar à vontade dela. Só que o mundo não se dobra.

Algo dá errado, e o filme não precisa complicar a explicação para que o público entenda o essencial: o salto temporal falha, o destino muda, e Arco acaba caindo bem longe de onde queria.

Em vez de parar na pré-história, ele aterrissa em 2075, um futuro que já chega com uma atmosfera bem definida, porque é um mundo acostumado a desastres climáticos, com incêndios florestais gigantescos ameaçando a cidade e com uma arquitetura que tenta sobreviver ao caos, incluindo prédios com bolhas de proteção contra tempestades e eventos extremos.

É interessante como o filme trata isso quase como parte do cenário cotidiano, sem transformar em palestra, apenas mostrando que aquele futuro aprendeu a viver com o imprevisível, como se certas catástrofes tivessem virado um “normal” desconfortável. Essa escolha dá um peso silencioso ao ambiente, e ao mesmo tempo deixa a aventura mais urgente, porque não é só a polícia que pode alcançar os protagonistas, é o próprio mundo em volta, que parece pronto para engolir quem estiver desprevenido.

É nesse 2075 que Arco conhece Iris, uma garota imaginativa e criativa, que estava desenhando do lado de fora da escola quando vê um arco-íris misterioso surgir no céu.

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Divulgação: MUBI e Mares Filmes

Ela segue o fenômeno até o fim e encontra Arco acidentado, e junto com ele surgem três irmãos teóricos da conspiração, Dougie, Stewie e Frankie, que também parecem estar atrás do garoto. A introdução desse trio é um toque curioso, porque eles poderiam facilmente virar apenas um alívio cômico ou uma ameaça simplificada, mas o filme os coloca num lugar mais funcional, quase como peças de um tabuleiro que vai se reorganizando conforme as necessidades da fuga e da sobrevivência.

Iris leva Arco para casa e, ali, ARCO abre espaço para um dos aspectos mais interessantes do filme, que é o modo como ele observa a relação entre humanos e tecnologia sem soar moralista. Iris é cuidada por Mikki, um babá robô carinhoso, já que seus pais passam a maior parte do tempo trabalhando na cidade, e mesmo quando aparecem, essa presença vem por holograma, como se a tecnologia estivesse o tempo todo tentando preencher a ausência física, tentando simular afeto, tentando substituir o calor humano com eficiência, imagem e distância.

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Divulgação: MUBI e Mares Filmes

O filme não precisa dizer “isso é ruim” ou “isso é bom”, ele apenas coloca a situação na tela, e a sensação que fica é a de uma infância cercada por recursos, mas atravessada por falta de toque, falta de presença real, falta de abraço, como se a modernidade tivesse resolvido mil problemas e, ao mesmo tempo, inventado outro tipo de vazio.

A partir daí, Iris e Arco tentam fazê-lo voltar para casa, e o filme encontra uma graça quase infantil nessa insistência, porque a solução imediata que eles tentam duas vezes é simples e visual, os dois pulam do telhado para ver se a capa faz o trabalho dela.

Só que existe um problema concreto que impede tudo de funcionar: a pedra do tempo desapareceu, e ela foi encontrada justamente pelo trio conspiracionista. Essa dinâmica dá ao roteiro uma estrutura de caça e recuperação bem clara, mas o que segura o interesse não é o objeto em si, e sim a forma como a amizade entre Iris e Arco começa a ganhar corpo dentro dessa confusão toda, com um ajudando o outro a se entender, a reagir, a decidir, como se em pouco tempo os dois se tornassem um porto seguro no meio de um futuro caótico.

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Divulgação: MUBI e Mares Filmes

Em paralelo, Mikki tenta ajudar do jeito que consegue, e isso é essencial para entender o tom do filme, porque ele não é uma vilão nem uma máquina fria. Ela avisa a polícia sobre o garoto perdido numa tentativa bem-intencionada de reuní-lo com os pais, sem perceber que os pais dele ainda nem existem naquela linha do tempo.

Esse detalhe tem um humor sutil, mas também carrega uma inteligência narrativa que o filme joga no colo do espectador sem fazer alarde. Quem gosta de histórias de viagem no tempo entende rapidamente o tamanho do problema, e o filme dá dicas o tempo todo sobre os desdobramentos das ações de Arco, principalmente para quem já sabe que mudar o passado pode alterar o futuro, e que nem toda ajuda é ajuda quando o contexto está quebrado.

A partir do momento em que a tensão aumenta, ARCO acelera o senso de urgência sem perder a delicadeza, usando um perigo constante do próprio mundo como pressão dramática e deixando claro que aquele futuro vive sempre no limite, enquanto as relações entre os personagens ganham peso emocional de verdade, com decisões impulsivas, consequências inevitáveis e um vínculo que amadurece rápido demais para a idade deles.

É depois de encantar que o filme encontra sua parte mais tocante ao transformar a tecnologia em afeto e sacrifício, conduzindo a história para um desfecho emotivo que amplia a escala do que estava em jogo e fecha com aquela mistura agridoce de perda, reencontro e coração aquecido, sem precisar ser perfeito para ficar na memória.

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Divulgação: MUBI e Mares Filmes

ARCO não se vende como uma obra impecável, porque ele é um “pequeno grande” filme (aproximadamente 1h20 de duração), bonito, sensível, com personagens que levam para um lugar de emoção honesta.

É o tipo de animação que vai te fazer chorar, especialmente perto do fim, não por manipulação barata, mas porque ela acerta em cheio na fragilidade das relações, no medo de perder, na vontade de estar perto, e na força que nasce quando duas crianças, perdidas no tempo, descobrem que amizade pode virar abrigo.

Dica especial: é um filme para ser visto com a mente aberta e o coração livre, e que funciona muito bem para pais assistirem junto com os filhos, já que a história tem calor suficiente para envolver diferentes idades, oferecendo aventura para uns, reflexão silenciosa para outros.

Nesta quinta-feira, dia 26 de fevereiro, ARCO chega exclusivamente aos cinemas brasileiros, como uma animação premiada de Ugo Bienvenu, com distribuição da MUBI em parceria com a Mares Filmes, e carrega no pacote essa sensação rara de estar diante de algo reconhecível e ao mesmo tempo novo, com uma assinatura visual própria e uma história que, mesmo não sendo perfeita, encontra um jeito muito bonito de tocar onde importa.

Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da MUBI e Mares Filmes.

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Robson Netto

Robson é o criador do Que Tar. Nascido em Ponta Grossa, a verdadeira capital da Rússia Brasileira. Enquanto não for processado, vai tentar trazer muito conteúdo e informações cheias de humor.

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