Hamnet é, antes de tudo, um filme sobre o amor que precisa aprender a existir depois da perda. Uma obra que olha para a dor não como espetáculo, mas como matéria sensível, quase sagrada, daquilo que nos torna humanos. E é justamente por isso que ele encontra sua força na delicadeza, na observação paciente e na recusa a qualquer atalho emocional fácil. Leia a crítica completa.
Desde seus primeiros trabalhos, Chloé Zhao se consolidou como uma cineasta profundamente interessada na intimidade dos gestos e na espiritualidade silenciosa do cotidiano. Em The Rider e Nomadland, ela encontrou no realismo poético da vida comum um caminho para falar de pertencimento, identidade e solidão. O vento, o chão seco, os corpos cansados, os silêncios longos, tudo ganhava uma dimensão quase mística.
Em Hamnet, Zhao amplia esse olhar e o desloca para a Inglaterra do século XVI, mas sem abandonar aquilo que define seu cinema: a atenção ao que não se diz, ao que pulsa por baixo das palavras.
Baseado no romance de Maggie O’Farrell, o filme evita de propósito o formato tradicional de cinebiografia. Aqui, William Shakespeare não é o centro absoluto da narrativa. Ele existe, claro, mas como consequência, não como ponto de partida. O longa escolhe outro caminho: observar a história a partir daqueles que amaram, sofreram e sobreviveram ao redor do escritor. É um filme interessado menos no gênio e mais na origem da ferida; menos na glória da obra e mais na dor que a gerou.
O Will vivido por Paul Mescal surge primeiro como homem comum. Um camponês que conhece a terra, o esforço físico, o ritmo do campo. Antes de ser dramaturgo, ele é marido, pai, filho daquele solo. Zhao faz questão de apresentá-lo integrado ao ambiente, como se o campo fosse extensão do seu corpo. Ao seu lado está Agnes, interpretada com impressionante sensibilidade por Jessie Buckley, uma mulher cuja comunicação com o mundo acontece muito mais pelo instinto do que pela fala. Ela sente antes de nomear, percebe antes de explicar.
A relação entre Will e Agnes nasce desse encontro entre dois modos distintos de existir. Ele, que mais tarde encontrará refúgio nas palavras; ela, que sempre dialogou com a natureza, com os ciclos da vida, com aquilo que não se escreve.

O filme constrói esse amor com gestos mínimos: olhares demorados, mãos que se procuram, silêncios compartilhados. Não há declarações grandiosas, apenas a sensação constante de cumplicidade. Zhao filma esse cotidiano com extremo cuidado, como se soubesse que ali, nos pequenos rituais domésticos, está o verdadeiro coração da história.
A primeira metade da história funciona quase como um poema visual sobre maternidade, pertencimento e conexão com a terra. Agnes é filha de uma curandeira, carrega consigo um saber ancestral e intuitivo sobre plantas, ciclos e presságios. Sua relação com a floresta não é decorativa; é essencial. O diretor de fotografia Łukasz Żal cria imagens de beleza hipnótica, onde a luz parece respirar junto com os personagens. A floresta não é cenário, mas organismo vivo. O espectador sente o vento, escuta os galhos, percebe a umidade do chão. Tudo ali comunica.
O trabalho de som de Johnnie Burn e a trilha de Max Richter reforçam essa sensação de imersão. A música surge como extensão emocional dos personagens, nunca como sublinhado óbvio. Sons naturais e acordes se misturam, criando uma continuidade entre o mundo exterior e o interior. O espaço físico se transforma em paisagem da alma.
Zhao conduz a narrativa com paciência quase radical. O casamento, o nascimento dos filhos, as brincadeiras, os dias comuns, tudo se desenrola sem pressa. O filme parece interessado em fazer o espectador habitar aquele tempo, entender aquele ritmo, criar laços antes que a tragédia chegue. E ela chega, inevitável, como o próprio título anuncia. Hamnet, o menino curioso e sensível, é levado pela praga que assola a região. A morte não é abrupta no sentido narrativo; ela é sentida como um vazio que se instala lentamente.

A partir desse momento, Hamnet se transforma. A luz muda, as cores se apagam, a natureza parece perder o vigor. O luto de Agnes passa a ser o centro emocional da obra. Zhao não suaviza essa dor nem a transforma em espetáculo. Ela a observa de frente, com respeito. Agnes grita, chora, se cala, se isola. Busca consolo na terra, nos troncos das árvores, no mesmo mundo natural que antes lhe oferecia vida. As cenas em que ela se recolhe sob uma árvore carregam uma força simbólica profunda: é como se tentasse retornar ao ventre do mundo para sobreviver à perda do filho.
Essa abordagem do luto é um dos maiores méritos do filme. Não há respostas fáceis, nem promessas de superação rápida. O luto aqui é vivido como experiência física, emocional e espiritual. Ele transforma os corpos, os espaços, as relações. Will, incapaz de compartilhar plenamente essa dor com Agnes, encontra na escrita uma forma de continuar existindo. É nesse ponto que assiste ao filme passa a refletir sobre o poder criador da arte e das palavras.

A escrita surge não como ambição ou vaidade, mas como necessidade vital. As palavras que darão origem a Hamlet nascem do desejo desesperado de transformar ausência em presença. Shakespeare escreve para não perder completamente o filho. Zhao filma esse processo com extrema delicadeza, mostrando como a arte pode ser uma tentativa de recompor aquilo que foi dilacerado. As palavras não substituem a perda, mas oferecem uma forma de diálogo com ela.
O clímax do filme, quando Agnes assiste à encenação de Hamlet no Globe Theatre, é de uma força emocional silenciosa. O rosto dela se mistura à figura do príncipe melancólico. A vida e a obra se sobrepõem. A dor pessoal encontra eco na linguagem artística. Não é redenção, mas reconhecimento. Agnes entende que o amor pelo filho agora existe também ali, naquele texto, naquela encenação.

Visualmente, é um filme de composição rigorosa e sensível. Zhao e Żal trabalham o enquadramento como se cada plano fosse uma pintura viva. Árvores, portas e sombras criam molduras naturais que parecem aprisionar os personagens dentro do tempo. Há uma constante sensação de suspensão, como se o filme estivesse sempre à beira do silêncio. Em alguns momentos, a câmera adota ângulos mais altos, quase oniscientes, sugerindo a presença invisível da Morte, aquela que Hamnet menciona em vida, como se já a conhecesse.
Esses planos mergulhados conferem à narrativa uma dimensão quase teatral. O espectador se torna testemunha distante, sentado em um camarote imaginário, observando os personagens no palco da existência. Essa escolha reforça a ideia de que toda vida, por mais simples, carrega uma beleza que merece ser contemplada. A câmera observa, mas nunca invade. Há respeito em cada movimento.

As atuações sustentam essa proposta com precisão emocional. Jessie Buckley entrega uma Agnes devastada, mas nunca reduzida à dor. Há força, fúria, silêncio e conexão espiritual em cada gesto. Paul Mescal constrói um Will contido, dividido entre o amor pela família e a incapacidade de expressar plenamente o que sente. A química entre os dois é palpável, construída mais nos silêncios do que nas falas.
O grande mérito de Zhao está em transformar o luto em experiência de transcendência sem recorrer ao sentimentalismo fácil, perder alguém é também ganhar uma consciência mais profunda da vida. A dor não é apenas ausência; é impulso criativo, é memória em movimento. Escrever e amar se tornam gestos equivalentes, ambos tentativas de manter vivo aquilo que o tempo insiste em apagar.

Hamnet se revela muito mais do que um drama histórico. É um filme sobre comunicação entre mundos: entre vivos e mortos, entre natureza e linguagem, entre gesto e palavra. Zhao constrói uma obra que fala sobre a necessidade humana de contar histórias para sobreviver. Não importa se por meio da escrita, do cinema ou do silêncio, amar é tentar dizer o indizível.
Não é um filme apenas sobre Shakespeare. É sobre todos nós. Sobre quem ama, perde e, mesmo ferido, encontra uma forma de continuar falando com o mundo. Uma obra que transforma o luto em linguagem e a dor em beleza.
A mensagem permanece clara e profundamente humana: Hamnet é uma linda história do amor de quem se expressa melhor em palavras e descobre, nelas, uma maneira de permanecer.
“Hamnet” estreia nos cinemas no dia 29 de janeiro de 2026, com distribuição da Universal Pictures Brasil.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Universal Pictures Brasil.
