“Wicked: Parte 2” é grandioso, surpreendente e um épico inesquecível. Se a primeira parte preparou o palco, a segunda entra como um turbilhão de história, emoção e propósito. Leia a crítica completa abaixo.
É como se tudo aquilo que já conhecíamos do musical, dos livros, das versões já revisitadas, finalmente encontrasse aqui seu ponto de maior brilho. E, honestamente, achei esta parte 2 não só mais completa, mas muito mais forte, madura e marcante do que a primeira. Há mais história, mais envolvimento emocional, mais liga com o que faz de Wicked uma obra tão poderosa. O filme é amarrado com uma precisão impressionante, sem medo de colorir Oz com novos detalhes que elevam a narrativa a um nível ainda mais emocionante.
Logo de cara, a abertura deixa claro que estamos prestes a ver uma Oz transformada e nada amistosa. A voz poderosa e quase venenosa de Madame Morrible (Michelle Yeoh) ecoa pelos céus anunciando que anos se passaram desde o episódio dos Macacos Voadores e a fuga da Bruxa Má do Oeste. Agora, com um charme manipulador, ela exige atenção redobrada da população: a bruxa segue sendo uma ameaça, e o governo precisa agir. Entre um aviso e outro, institui a proibição dos Animais falarem, exercerem profissões ou qualquer atividade que indique autonomia, um plano que ela e o Mágico já esboçavam desde o filme anterior.

Enquanto isso, seguimos pela famosa estrada de tijolos amarelos, agora em seus últimos metros de construção. O grande projeto do Mágico: unir toda Oz sob o brilho esmeralda de seu poder, é tocado de forma cruel. Bisões, impedidos de falar, são escravizados como força bruta. Eles puxam máquinas pesadas, choram baixinho enquanto levam chicotadas de guardas que agora representam o regime mais autoritário que Oz já viu. É um começo amargo, e essa dor visual prepara o terreno para a entrada mais épica que Elphaba (Cynthia Erivo) já teve nas telas.
Ali do alto, observando tudo, está ela. Elphaba surge como uma silhueta mítica contra o céu, remetendo até a cenas de super-heróis. O impacto é imediato. A Bruxa Má, para eles, chega como um furacão capaz de arruinar os planos do Mágico. E, numa sequência poderosa, ela luta com os guardas, usando sua vassoura e a habilidade que domina como ninguém, até libertar os bisões das correntes. É uma mensagem direta, quase um grito: ela voltou. Um dos guardas corre para anunciar sua aparição e, a partir daí, o filme finalmente começa.
Logo percebemos que Wicked: Parte 2 é um filme político, sempre foi. Tudo ali é estratégia, manipulação, narrativa, propaganda.
Glinda (Ariana Grande), agora uma figura indispensável para Oz, é tratada como a joia que simboliza pureza, bondade e beleza, mas só isso. Não há créditos dados à inteligência, nem à autonomia. Ela é um objeto nas mãos do Mágico e de Madame Morrible, uma peça usada para manter a fachada perfeita de um governo que só funciona porque ela sorri e acena.

E o mais interessante é que Glinda sente o peso disso. Ela sofre, mas ao mesmo tempo ama a sensação de ser importante, de ser vista, de ser amada pelo povo. O filme brinca com isso de forma muito inteligente, especialmente quando reprisa aquele trecho da música ÓDIO, em que dizem que ela é “boa demais”. Aqui, reforçam que ela continua sendo “boa demais”, enquanto seu status de Bruxa Boa vai crescendo quase como uma marca institucionalizada pelo governo.
É nesse momento que Madame Morrible a presenteia com a famosa bolha voadora. No filme, não é um feitiço, e isso é genial, mas sim uma engenhoca criada pela mente ilusionista do Mágico. É quase como uma aeronave glamourosa, pensada para manter Glinda suspensa nas alturas e no imaginário da população. Se Elphaba voa, a boa também deve voar. Equilíbrio de propaganda.

Essa preparação inicial do segundo ato é impecável. O terreno está plantado: política, manipulação, caça às bruxas e um governo que domina pela imagem e pelo medo. E dentro disso tudo, Madame Morrible se destaca ainda mais como a grande estrategista de comunicação do Mágico. Seu papel como propagandista é explícito. Ela cria caricaturas grotescas, espalha boatos, inventa cartazes difamatórios e estimula o pânico contra Elphaba com a precisão de quem conhece o jogo da opinião pública.
Enquanto isso, Glinda, brilha como nunca. Não apenas a atriz, mas a personagem. Ela está mais profunda, mais complexa, mais perdida. Dá quase pra dizer que ela tem o maior protagonismo do filme. Elphaba permanece essencialmente a mesma: rebelde, curiosa, inteligente e guiada por suas causas.
Paralelamente, vemos o crescimento político de Nessarose (Marissa Bode), irmã de Elphaba, agora governadora da terra dos munchkins após a morte do pai. E aqui o filme dá um salto narrativo muito interessante. Nessa se tornou uma líder autoritária, moldada pela dor, pelo ciúme e pela insegurança e mantém Boq (Ethan Slater) como servo, mesmo sendo apaixonada por ele, um amor não correspondido que o filme trabalha de forma sensível e amarga.
Quando Boq expressa vontade de ir embora, ela instaura uma lei que impede qualquer munchkin de sair das terras sem autorização dela. É mesquinho, cruel e tão humano que dói, essa decisão mostra claramente que Nessarose não precisa de magia para ser vista como uma bruxa: sua vilania nasce da frustração.
Musicalmente, “Wicked: Parte II” é um espetáculo à parte como sempre foi e sempre será. Todas as músicas estão ainda mais encantadoras, com arranjos grandiosos e referências claras às melodias da primeira parte. O filme abraça a nostalgia com força, mas sem perder identidade própria e encanta até quem não faz ideia do que aquelas palavras representam.

O jogo político também aparece na proposta de casamento arranjado entre Glinda e Fiyero (Jonathan Bailey). Ele agora é o capitão da guarda, encarregado de capturar Elphaba. Sabemos que ele está ali porque não tem outra escolha. É a forma que encontrou para, talvez, se aproximar de Elphaba em algum momento. Enquanto isso, Glinda segue celebrando, tentando ser um raio de luz num governo que usa sua imagem para encobrir atrocidades.
A amizade entre Glinda e Elphaba resiste, mesmo com todas as escolhas opostas das duas. Há afeto e dor ali, o que deixa tudo ainda mais humano. A narrativa deixa claro que o Mágico de Oz (Jeff Goldblum) continua sendo aquele impostor cínico, manipulador e covarde, sustentado pela propaganda de Madame Morrible.
Os Animais ganham uma camada emocional muito importante nesta parte. Agora silenciosos, servos, diminuídos, eles tentam fugir e abandonar Oz em busca de um lugar onde possam existir. Esse lugar, além da fronteira, é descrito como um deserto sem magia, cheio de névoa e mistério. Elphaba tenta impedir a fuga. E é aí que nasce No Place Like Home, uma nova canção de Stephen Schwartz que dialoga com o clássico do filme de 1939. É suave, poderosa e fala sobre pertencimento, sobre lutar pelo que é seu, mesmo que o mundo tente arrancar isso de você.
Enquanto isso, Glinda enfrenta o peso de ser porta-voz de um regime autoritário. Ela é a “Garota na Bolha”: vista, mas não ouvida; admirada, mas não amada; brilhante, mas vazia. Sua música The Girl in the Bubble reflete isso com uma sinceridade dolorosa.

A partir daí, a história entra em territórios que quem já conhece o musical vai reconhecer. Mas ver tudo isso transposto para o cinema, com a sensibilidade que o diretor Jon M. Chu trouxe, é uma experiência especial. Ele costura com cuidado as pontes entre Wicked e O Mágico de Oz, respeitando o mistério que envolve Dorothy. Ela aparece como figura, não como personagem. Nunca vemos seu rosto claramente, e isso é perfeito. No nosso imaginário, ela é Judy Garland. E nada precisa mudar isso.
O grande ápice musical é No Good Deed. Cynthia Erivo está simplesmente devastadora. Vocal, interpretação, olhar, respiração, tudo está em sintonia com o peso emocional daquele momento. É tão forte que supera até Defying Gravity. E isso é dito com tranquilidade: no cinema, No Good Deed é uma força da natureza. Você vai se arrepiar todinho.
Depois disso, o filme entrega uma sequência de surpresas emocionantes, com adições que enriquecem o desfecho. O final é arrebatador, emocionante, daqueles que fazem a sala inteira ficar em silêncio por alguns segundos antes dos aplausos. Parte o coração, mas fecha a história com a dignidade que ela sempre mereceu.
“Wicked: Parte 2” é um filme sobre política, amizade, renúncia, sacrifício, a construção (e a destruição) de símbolos. Mas, acima de tudo, fala sobre amor. O amor que transforma, que dói, que liberta e que, às vezes, exige que abramos mão até de quem somos.
Um final perfeito para um épico perfeito.
“Wicked: Parte 2” estreia nos cinemas no dia 20 de novembro de 2025, com distribuição da Universal Pictures Brasil.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Universal Pictures Brasil.
