Crítica | Invocação do Mal 4: O Último Ritual – quando o trauma é de família

Esse filme não é perfeito, mas fecha a franquia melhor do que eu imaginava. Leia a crítica completa de Invocação do Mal 4: O Último Ritual.

O último capítulo da franquia Invocação do Mal, criada e produzida por James Wan, chega aos cinemas carregando o peso de encerrar uma das sagas de terror mais populares das últimas décadas.

E, como não poderia deixar de ser, o filme se apoia em dois elementos já conhecidos do público: o terror doméstico e os traumas familiares. A trama até demora para engrenar, com seus altos e baixos, mas consegue entregar bons sustos e um clima tenso o suficiente para justificar sua despedida.

Depois do quase esquecível A Ordem do Demônio (2021), havia a expectativa de que este quarto filme voltasse às raízes e trouxesse de novo a essência que fez os primeiros longas serem lembrados com tanto carinho (e medo). Aqui, encontramos Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) em um momento diferente de suas vidas: aposentados das investigações, tentando cuidar da saúde de Ed, que está debilitado após anos enfrentando fantasmas, demônios e até bonecas amaldiçoadas. O peso das batalhas passadas finalmente aparece, e a ideia de que esses heróis também são mortais dá um tom melancólico ao ponto de partida.

invocação do mal 4 crítica
Divulgação: Warner Bros Pictures.

Mas o filme não começa por aí. Antes, somos transportados para 1964, um dos primeiros casos da dupla, quando eles ainda eram jovens e inexperientes. Nesse prólogo, Ed e Lorraine investigam o suicídio de um homem que surtou após comprar um espelho de madeira com adornos macabros. Os papéis são assumidos pelos atores Madison Lawlor e Orion Smith, que surpreendem pela semelhança física e pela boa atuação, dando credibilidade à juventude dos Warren.

É nesse momento que a tensão já se instala. Lorraine, grávida e prestes a dar à luz, se aproxima do espelho amaldiçoado, atraída por uma presença obscura. A cena é de arrepiar: a entidade que habita o objeto parece mirar não apenas nela, mas na criança que carrega. Um ataque paranormal desencadeia um trabalho de parto prematuro, criando uma das aberturas mais emocionais da franquia. O mistério é apenas sugerido, mas a mensagem é clara: esse demônio está ligado à linhagem dos Warren.

judy warren em invocação do mal 4
Divulgação: Warner Bros Pictures.

Essa conexão é retomada anos depois, com Judy Warren (Mia Tomlinson), filha de Ed e Lorraine, agora jovem adulta. Desde criança, Judy herdou os dons mediúnicos da mãe e precisou aprender a controlá-los para não viver atormentada por visões que nenhuma criança mereceria enfrentar. Um cântico repetido ao longo do filme, quase um mantra, representa esse controle, embora sua insistência acabe soando um tanto repetitiva na tela.

Judy tenta levar uma vida comum: acompanha os pais em palestras sobre casos paranormais (que, aliás, já não atraem tanta atenção assim, com o público mais interessado nos Caça-Fantasmas do que nos Warren), e vive um romance doce com o simpático Tony (Ben Hardy). Ele é o típico namorado que busca a aprovação dos sogros, sonhando com um futuro ao lado da garota, mesmo que a vida dela seja cercada por horrores sobrenaturais.

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Divulgação: Warner Bros Pictures.

Paralelamente à trama da família Warren, o roteiro resgata a história real da família Smurl, um dos casos mais perturbadores registrados nos anos 80 nos Estados Unidos. Jack e Janet Smurl se mudaram para uma casa na Pensilvânia com seus filhos e os pais de Jack, após perderem a antiga residência numa enchente. Pequenos fenômenos estranhos logo deram lugar a manifestações grotescas: odores de enxofre, aparições sombrias, barulhos inexplicáveis e, em seguida, agressões físicas. As alegações chegaram até a incluir abuso sexual por uma entidade demoníaca.

No filme, a ligação entre os Smurl e os Warren é estabelecida quando os avós da família compram, em um antiquário, o mesmo espelho amaldiçoado visto no prólogo. É o elo que une as duas linhas narrativas: Judy, Lorraine e o demônio estão todos presos a esse objeto. Judy, em especial, sente-se compelida a ajudar, mas sua dificuldade em controlar os dons mediúnicos faz com que cada passo seja arriscado.

Divulgação: Warner Bros Pictures.
Divulgação: Warner Bros Pictures.

Michael Chaves, que já havia dirigido A Maldição da Chorona e Invocação do Mal 3, mostra mais maturidade aqui. Sua direção é competente na criação de ambientes claustrofóbicos e cenas de ilusão, em que o espectador se perde entre realidade e alucinação. Há sustos previsíveis, claro, mas também momentos genuinamente tensos em que o silêncio pesa mais que o grito.

A câmera passeia por corredores escuros, sombras se movem no canto da tela e, mesmo sabendo que o “jump scare” vai acontecer, a gente não consegue desviar o olhar.

A fotografia de Eli Born reforça esse clima, apostando em contrastes fortes e uma paleta de cores fria, quase sem vida, que dá a sensação de que o mal está impregnado em cada parede. A trilha de Benjamin Wallfisch, já conhecido por outros filmes da franquia, também se destaca, alternando entre crescendos orquestrais e silêncios estratégicos que deixam o público na ponta da cadeira.

O grande pecado de O Último Ritual é o ritmo. Com quase 2h20 de duração, o filme se alonga mais do que deveria.

Muitas cenas se concentram nos dramas familiares, a preocupação com a saúde de Ed, os conflitos de Judy, o namoro com Tony, o que até acrescenta camadas emocionais, mas dilui a tensão do terror. Quando chega ao clímax, a resolução parece apressada, quase anticlímax, como se o filme tivesse gasto energia demais no meio do caminho e não soubesse como encerrar de forma impactante.

Outro ponto discutível é a insistência em referências ao universo expandido. O museu dos Warren, com seus objetos amaldiçoados, aparece de novo, e claro que Annabelle dá as caras. Mas será que precisava tanto? A boneca já brilhou (ou apavorou) em seus próprios filmes; aqui, sua aparição soa mais como fan service do que como parte essencial da narrativa.

O roteiro tenta passar o bastão para Judy, colocando-a como protagonista em vez dos pais. A ideia faz sentido, já que o casal Warren, na vida real, não teria como continuar eternamente em cena. Mas a execução é confusa: o filme insiste em sugerir que Ed pode morrer a qualquer momento de um ataque cardíaco, e isso acaba gerando uma tensão deslocada, quase como se esperássemos um final alternativo que nunca chega.

Invocação do Mal 4 crítica
Divulgação: Warner Bros Pictures.

Para quem conhece a história real, não há mistério: Ed morreu apenas em 2006, e Lorraine em 2019. Essa tentativa de licença poética, sem coragem de levá-la até o fim, deixa um gosto estranho.

Apesar dos tropeços, Invocação do Mal 4: O Último Ritual é um bom filme de terror. Talvez não alcance a força dos dois primeiros, mas consegue ser mais envolvente e emocional que o terceiro. A mistura de sustos bem construídos com o drama familiar dá um diferencial: não é só sobre demônios que pulam da escuridão, mas sobre o peso que uma família carrega ao conviver com o inexplicável.

É difícil dizer se realmente é o fim do casal Warren no cinema, franquias de terror raramente ficam enterradas para sempre. Mas se for, ao menos a despedida foi feita com respeito aos personagens e aos atores que os eternizaram. O filme funciona como fechamento, ainda que imperfeito, e deixa a sensação de que, mesmo quando as cortinas se fecham, o mal nunca descansa (e pelo jeito, nem a Annabelle).

Crítica | Invocação do Mal 4: O Último Ritual estreia nos cinemas no dia 04 de setembro.

Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Warner Bros Pictures.

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Robson Netto

Robson é o criador do Que Tar. Nascido em Ponta Grossa, a verdadeira capital da Rússia Brasileira. Enquanto não for processado, vai tentar trazer muito conteúdo e informações cheias de humor.

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