Você sente, mas nem sempre percebe: o poder oculto da cinematografia

Você já se perguntou o que é cinematografia?

A experiência de assistir filmes vai muito além de simplesmente observar a tela, ela é uma imersão complexa, sensorial e emocional.

E essa imersão só é possível graças a cinematografia.

Cinematografia: o olhar essencial por trás das lentes

Conhecida também como Direção de Fotografia, cinematografia é a arte e a ciência que abrange todos os aspectos visuais de uma produção cinematográfica.

Ela serve como base sobre a qual a narrativa do filme é construída e a emoção é transmitida.

No centro dessa prática está o diretor de fotografia, um profissional que é responsável pela estética visual de uma produção audiovisual.

Diretor de Fotografia
Imagem: Google Labs

Este diretor possui diversas funções, que vão desde estimular discussões e debates sobre a visão artística, até definir os esquemas de iluminação que darão vida à cena
Porém, a cinematografia não é apenas um conjunto de técnicas, ela exerce uma influência profunda sobre como os eventos, os personagens e as emoções são transmitidos, e recebidos pelo público.

Ela molda a percepção e a resposta emocional do espectador antes mesmo que o diálogo ou o enredo sejam plenamente processados. Escolhas técnicas de um bom diretor de fotografia, como o movimento de câmera, enquadramento, objetos de cena e iluminação, não são apenas sobre mostrar o que está acontecendo, mas como isso passa uma mensagem e te faz sentir.

O que faz parte da linguagem cinematográfica?

Agora, vamos conhecer alguns elementos da cinematografia, que juntos, criam a experiência visual e emocional de uma obra.

Movimento de câmera

É o que influencia o ritmo e a fluidez da narrativa cinematográfica. Um movimento suave pode induzir calma, em contraponto, um movimento abrupto pode gerar ansiedade.

Isso vai além de “apenas mostrar uma cena”, é sobre fazer o espectador sentir o movimento.

Alguns dos movimentos de câmera são:

• Traveling: Movimentos livres da câmera ao redor do espaço, o que permite uma exploração dinâmica do ambiente. (Exemplo de Filme: Os Bons Companheiros)

• Tracking Shot: Movimentos lineares que acompanham um personagem ou objeto, como em cenas onde alguma pessoa caminha. (Exemplo de Filme: Tár)

• Panorâmica (Pan e Tilt): Quando a câmera gira em torno do próprio eixo, sem se deslocar fisicamente. Pan se refere ao movimento feito na horizontal, e Tilt, na vertical. (Exemplo de Filme: Inception)

Enquadramento e Composição

O enquadramento é uma das decisões mais fundamentais da linguagem cinematográfica,
pois é o que decide o que será incluído no filme em cada momento, e como o espectador irá perceber aquele mundo.

Cada escolha de ângulo, plano e regra de composição é uma manipulação intencional da percepção do espectador.

Plano:

É a distância entre a câmera e o objeto filmado, alguns exemplos são:

1. Plano Aberto: Mostra o sujeito de longe, enfatizando o local.

2. Plano Médio: Enquadra o personagem da cintura pra cima. Ele foca no personagem ao mesmo tempo que revela a ambientação.

3. Close Up: Preenche a tela com uma parte específica do personagem. É utilizado para mostrar detalhes e destacar emoções intensas.

Imagem: Google Labs

Ângulo:

É a posição da câmera em reação ao sujeito.

1. Câmera Normal: A câmera é posicionada na altura dos olhos do personagem, simulando a visão humana.

2. Câmera Alta: A câmera é posicionada acima do sujeito, fazendo com que o sujeito pareça inferior e vulnerável. Também é conhecido como Ângulo Plongée.

3. Câmera Baixa: A câmera é posicionada abaixo do sujeito, olhando para cima. Ao contrário do anterior, esse ângulo faz o personagem parecer superior. E pode ser chamado de Contra Pongee.

4. Ângulo Holandês: A câmera fica inclinada em seu eixo de rotação, resultando numa imagem desalinhada. É usado para causar sentimento de desorientação e desconforto.

Iluminação:

Ela é capaz de determinar o tom, o humor e a psicologia dos personagens e do ambiente de forma profunda. A iluminação é o que dita a atmosfera filmica, é a ferramenta que esculpe o sentimento.

Pode ser categorizada em termos de sua origem e qualidade:

Luz Natural: Cria uma atmosfera de realismo e autenticidade.

Luz Dura: Projeta sombras nítidas e bem definidas, e se origina de uma fonte de luz pequena e focada.

Luz Suave: Ela envolve os objetos e produz sombras difusas e com bordas suaves.

Imagem: Google Labs

Vale mencionar a Iluminação de Três Pontos, uma técnica que cria uma imagem bem iluminada e com profundidade, utilizando três fontes de luz distintas:

1. Luz principal ou Key Light: ilumina o objeto principal da cena.

2. Luz de preenchimento ou Fill Light: suaviza as sombras, tornando a imagem mais natural e equilibrada.

3. Contraluz ou Back Light: Adiciona profundidade e dimensão à cena, separando o objeto do fundo.

Existem duas técnicas de iluminação amplamente utilizadas, são elas:

High Key Lighting: Cenários bem iluminados, com foco em brilho e tons brancos — sugere um tom otimista, alegre e positivo, e é frequentemente empregada em comédias como Meninas Malvadas e Superbad

Low Key Lighting: Enfatiza o contraste, as sombras e os tons escuros — cria um tom mais sério, dramático e de suspense. É muito utilizado em Filmes Noir, como Double Indemnity, em filmes de terror como Alien e em filmes dramáticos como Whiplash.

Imagem: Google Labs

Cor:

Na cinematografia, ela é mais do que mera estética. É um elemento fundamental da narrativa visual, capaz de criar atmosferas, definir personagens e provocar emoções.

Alguns exemplos das sensações que elas nos causam são:

Cores Quentes: Transmitem paixão, perigo, energia ou um senso de alerta. (Exemplo de Filme: Beleza Americana)

Cores Frias: Podem evocar tranquilidade, tristeza, mistério, isolamento ou frieza. (Exemplo de Filme: Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças)

Profundidade de Campo (DOF)

É a faixa de distância em que os objetos em cena aparecem nítidos e em foco, enquanto o restante da imagem pode ficar desfocado. Ela é crucial para direcionar a atenção do espectador ao objeto desejado, e fornece contexto ambiental.

Existem dois tipos principais de Profundidade de Campo:

1. Profundidade de Campo Rasa (Shallow DOF): Cria um efeito onde apenas uma pequena parte da imagem está em foco, enquanto o resto aparece borrado. Isso cria uma sensação de intimidade, isola o sujeito e direciona a atenção do espectador para ele, sendo útil em retratos ou fotografia macro.

2. Profundidade de Campo Profunda (Deep DOF): Quase toda a fotografia está em foco, incluindo o primeiro plano e o fundo. É frequentemente utilizada em paisagens ou tomadas de grande angular, fornecendo mais informações sobre o ambiente e a relação do sujeito com ele.

A profundidade de campo é controlada por 3 fatores principais: Distância da Câmera ao Objeto, Abertura (f-stop) e Distância Focal da Lente.

Imagem: Google Labs

Som

Embora a cinematográfica seja predominantemente visual, o som também nos auxilia na imersão da história. A evolução da tecnologia sonora expandiu as possibilidades para uma narrativa imersiva, apesar das limitações iniciais na mobilidade da câmera.

O som adiciona complexidade e emoção à narrativa, criando uma sensação de realismo. Se o som não é realista e meticuloso nos detalhes acústicos de uma época ou lugar, ele pode tirar o espectador da sensação de imersão.

A música e o design de som podem impactar profundamente a resposta emocional ao filme.

Além dos diálogos e da trilha sonora, o som “extracampo” – o que está fora da imagem – contribui significativamente para a atmosfera e a imersão, expandindo o universo percebido pelo espectador.

Como aprender mais sobre cinematografia assistindo a filmes?

— Parasita (Parasite, 2019)

O filme sul coreano, dirigido por Bong Joon-ho, é aclamado por sua incrível cinematografia, especialmente pelo excelente enquadramento de câmera.

O diretor usa dos enquadramentos para criar um sub texto — Utilizando de forma estratégica o espaço e a composição para sublinhar a desigualdade social.

parasita enquadramentos
Imagem: NEON

A “coreografia” entre a câmera, os personagens e os objetos no ambiente é crucial para a construção de sentido e para a crítica social que o filme propõe.

— O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972)

A obra é considerada uma verdadeira aula de cinematografia por sua excelência em diversos aspectos técnicos e narrativos. A direção de Francis Ford Coppola, aliada à fotografia de Gordon Willis — conhecido como “O Príncipe das Sombras” — utiliza contrastes de luz e sombra para criar uma atmosfera densa e simbólica.

o poderoso chefao - cinematografia
Imagem: Paramount Pictures

A famosa “luz do Dom Corleone”, um tipo de top light que escurece os olhos do ator, é um elemento fundamental que traz poder e mistério ao protagonista, realçando o que a fala esconde.

O que vem por aí no cinema?

A cinematografia pode ser considerada como o coração visual da experiência cinematográfica.

É mais do que um conjunto de técnicas, é o que nos permite sentir, e compreender profundamente a obra. E cada elemento citado, contribui para a construção de uma experiência coesa, emocionalmente ressonante e profundamente imersiva.

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Artigo escrito por Isabelly Ferreira Cardoso – sob a supervisão de Robson Netto.

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