O mundo não se importa mais com os dinossauros, e você? Leia a crítica de Jurassic World: Recomeço.
O protagonismo do reinício da franquia jurássica fica entre grandes atores e grandes dinossauros, em uma história nova, não totalmente original, mas que dá aquele gostinho de que esse universo ainda tem salvação (até o nosso).
Confesso que sou um dos millennials que cresceu alugando fitas VHS no fim de semana e frequentava os cinemas de rua para ver a trilogia original de Jurassic Park. Sonhava em ser paleontólogo e sabia o nome de cor de todos os dinossauros. E posso dizer com tranquilidade: me reencontrei com essa criança ao assistir Jurassic World: Recomeço.
O filme começa com uma introdução direta ao espectador, contextualizando os eventos desde Jurassic World: Domínio, quando os dinossauros passaram a viver entre os humanos, em um planeta desestabilizado por suas presenças, até o cenário atual, em que as criaturas estão novamente à beira da extinção. Só que dessa vez, não só por culpa dos humanos… mas pela própria natureza.

Com as mudanças climáticas se intensificando e o desequilíbrio ecológico cada vez mais evidente, os dinossauros foram desaparecendo. Restaram apenas algumas espécies resistentes, que encontraram refúgio em áreas específicas do planeta: as regiões equatoriais. Quentes, úmidas, hostis e incrivelmente parecidas com a Terra de milhões de anos atrás. Por sinal, um lugar de acesso proibido por todas as nações.
Fora dessas zonas, os dinossauros são vistos como incômodos, como resíduos de um passado que a sociedade quer esquecer. Um momento particularmente triste é quando um gigantesco braquiossauro invade o trânsito de Nova York após fugir de uma exibição: uma cena grandiosa, mas melancólica, que mostra o quanto essas criaturas passaram de maravilhas genéticas a aberrações ignoradas.
Nesse novo mundo apático à existência dos dinossauros, surgem os poucos que ainda se importam: cientistas, protetores, empresários gananciosos e, claro, aqueles velhos apaixonados pelo mistério do passado.
Antes de conhecermos os protagonistas, somos levados para uma retrospectiva que mostra uma instalação da InGen (velha conhecida da franquia) em uma ilha que conheceremos melhor adiante. Ali, novas espécies estão sendo criadas a partir da manipulação genética.

A sequência é rápida, mas impactante: vemos mutações bizarras, como um dinossauro com duas cabeças, até o inevitável (e narrativamente previsível desastre). Uma falha no sistema (causada por merchandising — risos) libera os animais, e o caos toma conta. Um cientista é deixado para trás, vítima de um novo espécime aterrorizante: o D-Rex (ou Distortus Rex), um predador mutante com força, velocidade e aparência grotesca.
Corte para o presente: somos apresentados à protagonista Zora Bennet (Scarlett Johansson), agente de operações secretas, que recebe uma missão inusitada de Martin Krebs (Rupert Friend), representante de uma bilionária empresa farmacêutica. Ele afirma que, com o DNA de três dinossauros específicos ainda vivos, será possível desenvolver uma cura revolucionária para doenças cardíacas. A promessa é nobre. A verdade… nem tanto.

Zora aceita, movida não só pelo dinheiro, mas pela superação de traumas do passado. Ao seu lado, dois reforços de peso: Duncan Kincaid (Mahershala Ali), líder da equipe e seu antigo parceiro de campo, e o paleontólogo Dr. Henry Loomis (Jonathan Bailey), que vê na missão uma oportunidade única de estudar os dinossauros em seus habitats naturais.
Enquanto isso, uma segunda trama se desenrola no mar: Reuben Delgado (Manuel Garcia-Rulfo) navega com suas filhas Teresa (Luna Blaise) e Isabella (Audrina Miranda), além do genro Xavier (David Iacono), tentando reforçar laços familiares em alto-mar. O que era para ser uma viagem de aproximação, que já não estava lá aquelas coisas, se transforma em pesadelo quando um enorme Mosassauro ataca o barco.

Esses dois núcleos (a equipe de resgate e a família em perigo) eventualmente se cruzam, e a partir daí, o filme ganha ritmo. São perseguições, acidentes, divisões do grupo, ataques em terra, água e ar. Em pouco tempo, todos acabam em diferentes pontos da misteriosa ilha equatorial mostrada no início do longa, agora completamente abandonada… e infestada de dinossauros hostis.
Nessa engrenada, Jurassic World: Recomeço alterna entre ação frenética e momentos de tensão clássica, com cenas que remetem diretamente ao espírito de sobrevivência dos primeiros filmes de Jurassic Park. Em alguns trechos, o filme quase esquece da missão científica e se transforma numa corrida desesperada por sobrevivência: o que, convenhamos, é sempre divertido.
Entre os grandes acertos do roteiro está a reintrodução de dinossauros com camadas emocionais. A cena em que o grupo encontra um vale com dezenas de Titanossauros é simplesmente linda. Criaturas gigantes, dóceis, que se reúnem ali para procriar e viver em paz. Um respiro poético em meio ao caos, e que mostra que nem todo dinossauro é ameaça.

Mas não se engane: o perigo ronda o tempo todo. A nova criatura híbrida, D-Rex, é o verdadeiro monstro da vez. Um predador gigantesco, com quatro patas, dois braços e uma estrutura corporal tão errada que assusta só de olhar. Ele é o chefe da ilha, o apex predator, e sua presença impõe medo até nos dinossauros menores.

Outro destaque ameaçador são os Mutadons, mutação genética de velociraptores com pteranodons. Esses híbridos bizarros são rápidos, mortais e fazem da vida da família Delgado um inferno na ilha. São sequências de ataque bem coreografadas, que lembram cenas clássicas como a cozinha em Jurassic Park ou o trailer em O Mundo Perdido. E, é claro, não podia faltar ele, o queridinho da franquia: o Tiranossauro Rex, que vem para cumprir sua escalação de sempre, perseguir e assustar.
Apesar dos bons momentos, o filme também tropeça. Há personagens com potencial narrativo enorme que simplesmente viram alimento de dinossauro sem muito desenvolvimento. Outras vezes, o roteiro recorre a conveniências forçadas para mover a trama. E sim, ainda temos aquelas falas expositivas que parecem saídas de um manual de “como explicar demais”.
As atuações, no geral, são bem sólidas. Scarlett Johansson entrega bem a agente endurecida, mas é Jonathan Bailey quem rouba a cena com sua sensibilidade e empolgação nerd de estar perto dos dinossauros. Mahershala Ali cumpre bem seu papel de líder, embora seu personagem pareça um pouco subaproveitado, sendo usado mais como reforço dramático do que figura central da história.
A direção é de Gareth Edwards, conhecido por Godzilla (2014), Rogue One (2016) e Resistência (2023). E aqui, ele brilha. Edwards tem um talento notável para construir escala, e em Jurassic World: Recomeço, ele usa isso a favor.
As cenas de ação são bem filmadas, com câmeras que se posicionam de forma criativa para criar suspense e algumas das melhores sequências de tensão da franquia desde o filme original estão aqui. Visualmente, o filme é um salto em relação aos anteriores. Abandona a paleta lavada dos últimos filmes e aposta em cores vivas, florestas intensas, águas cristalinas e cenas noturnas com iluminação dramática.
Jurassic World: Recomeço não reinventa muita coisa e nem tenta. Ele reconhece suas origens, faz referências, entrega nostalgia, traz novos perigos e respeita o que o público quer ver: dinossauros. A ideia de explorar mais a convivência dos humanos com essas criaturas ainda tem muito potencial, e o filme acerta ao dar fôlego a essa franquia que parecia estar perdendo o rumo.
No fim das contas, talvez a saga não precise continuar para sempre. Mas, se continuar com a proposta apresentada em Recomeço, esse retorno ao suspense bem dosado e esse carinho com os fãs antigos, que venha mais um capítulo (tomara).
Jurassic World: Recomeço estreia nos cinemas em 03 de julho.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Universal Pictures.
