Uma adaptação lindíssima, fofíssima e bem interessante: leia a crítica de Lilo & Stitch (2025).
O novo live-action de Lilo & Stitch aposta firme na emoção para compensar as mudanças inevitáveis da transição da animação para o realismo. E faz isso com o coração tão exposto quanto os olhos marejados de quem cresceu ouvindo a palavra “Ohana”.
Já começo essa crítica dizendo que reencontrei minha criança interior ali, sentadinha ao meu lado na poltrona do cinema. Aquela mesma criança de 10 anos que um dia ficou vidrada em uma história sobre um alienígena desastrado, uma garotinha incompreendida e a importância de ter um lar, mesmo que ele seja todo torto, barulhento e bagunçado.
A sensação de nostalgia vem com tudo, mas o que me surpreendeu mesmo foi a força com que esse novo filme reafirma a ideia de que “Ohana quer dizer família. E família quer dizer nunca abandonar”.
Com um início rápido, divertido e fiel ao original, somos transportados direto para o Conselho da Federação Galáctica Unida. Ali, a Grande Conselheira (interpretada pela imponente Hannah Waddingham e dublada por Márcia Coutinho) interroga o cientista maluco Doutor Jumba Jookiba (Zach Galifianakis), criador da perigosa Experiência 626 que, como a gente já sabe, vai acabar ganhando o nome de Stitch. O julgamento é ágil, o tom é leve, mas já carrega aquele misto de ficção científica e comédia que sempre funcionou bem na franquia.

Considerada uma ameaça por sua força descomunal e completa falta de empatia, 626 é condenada ao exílio. Só que, como o próprio conselho aprende rápido demais, Stitch é muito mais esperto do que parece e, é claro, escapa, roubando uma nave e fugindo para um planeta isolado e aparentemente inofensivo: a Terra.
É aí que entra a nossa dupla favorita de perseguição: Jumba, relutante mas determinado, e o agente Pleakley (Billy Magnussen), um alienígena todo empolgado com a cultura terráquea — e com um gosto peculiar por disfarces esquisitos.
A química entre os dois continua hilária, e o humor pastelão deles funciona mesmo fora da animação. O visual, aliás, é um espetáculo à parte: a estética dos alienígenas ficou realista o suficiente para se encaixar no mundo, mas ainda assim colorida e caricata para manter o espírito do original.
A ambientação no Havaí também merece todos os elogios. O filme é ensolarado, com paisagens de tirar o fôlego e uma fotografia que acerta em cheio ao capturar aquela mistura de paraíso tropical com cotidiano difícil de quem precisa se virar para sobreviver.
É nesse cenário que conhecemos Lilo Pelekai (a estreante e encantadora Maia Kealoha), uma garotinha diferente, solitária e absurdamente cativante. Ela nada entre peixes, alimenta seu amigo peixinho que “controla o tempo” e se atrasa (como sempre) para a aula de hula — uma sequência de abertura que emociona tanto quanto diverte, e que já mostra o tom que o filme vai seguir: doce, sensível e com os pés na areia.
Nani (Sydney Agudong), a irmã mais velha e agora tutora legal de Lilo, é uma das maiores beneficiadas pela adaptação. Seu arco é aprofundado, e o filme nos mostra mais do que apenas o esforço para manter a irmã longe dos problemas.
Vemos seus sonhos interrompidos, sua luta silenciosa para não desmoronar e a constante culpa que carrega por não ser suficiente quando, na verdade, ela é a força que sustenta tudo. A entrega de Sydney é honesta, intensa, e ela divide o protagonismo com a pequena Kealoha de forma tão natural que a gente acredita, de verdade, naquela relação.

A grande surpresa vem com os novos personagens. Amy Hill interpreta a Tūtū, avó do personagem David (Kaipo Dudoit), que aqui ganha mais tempo de tela e desenvolve uma relação doce com Nani. É uma presença que reforça a importância da rede de apoio, um dos temas mais bonitos dessa nova versão.
E falando em surpresas: Tia Carrere, que foi a voz original da Nani na animação de 2002, retorna ao universo da história como a assistente social Sra. Kekoa. E que retorno! Sua personagem tem empatia, senso de humor e carrega um ar maternal que encaixa perfeitamente com o clima do filme. A homenagem aos fãs é ainda mais especial porque, na dublagem brasileira, a atriz é novamente interpretada por Mareliz Rodrigues, fechando esse ciclo com emoção e respeito à memória do original.

O agente Cobra Bubbles, que era um misto de homem misterioso e figura mal-humorada no desenho, aqui ganha um novo tom com o ator Courtney B. Vance. Agora ele é uma figura mais ligada ao governo e ao monitoramento de atividades extraterrestres. Apesar de ter menos tempo de tela, a presença dele é marcante e pontua os momentos em que a ameaça externa se aproxima da família Pelekai para captura Stitch.
Entre as ausências, talvez a mais sentida pelos fãs seja a do Capitão Gantu. O gigante alienígena que servia de antagonista na animação não aparece nesta versão, e sua função é parcialmente absorvida por Jumba, que aqui é mais vilanesco do que redimido.
A mudança pode causar estranhamento, mas dentro da nova proposta ela funciona bem, e até dá mais espaço para Stitch brilhar como herói de sua própria trajetória.
E que trajetória! O encontro de Lilo com Stitch é um dos momentos mais lindos do filme. Ela deseja um anjo, um amigo, alguém com quem dividir suas dores e suas brincadeiras. Ele, fugindo e ferido, só quer se esconder. Mas no olhar entre os dois, naquela conexão imediata entre duas almas deslocadas, está a mágica que move toda a história.

O abrigo de animais vira palco para uma das cenas mais tocantes do filme (que se repete depois) e o live-action soube transformar esse momento em algo ainda mais emocionante do que a animação já havia conseguido.
Stitch é interpretado na voz original por Chris Sanders (criador e voz original do personagem), e no Brasil, o retorno do talentoso Márcio Simões na dublagem é um presente. A voz, os ruídos, os gritinhos e até os silêncios de Stitch têm uma carga emocional absurda. Ele continua bagunceiro, hiperativo e completamente adorável, mas também ganha mais nuance, mais melancolia, mais sentimento.
A relação de Lilo e Stitch se desenvolve em meio a confusões deliciosas e desastres inevitáveis. A cada passo, eles se entendem, se completam, se tornam… família. Mas tudo tem um custo. A presença de Stitch complica ainda mais a vida de Nani, e os riscos aumentam.
Quando Lilo é colocada em perigo, o alienígena azul percebe que talvez, para proteger sua Ohana, ele precise se afastar. É nesse ponto que o filme aperta o coração e também mostra que cresceu. A maturidade com que lida com temas como abandono, luto e pertencimento é admirável.

A trilha sonora também dá um show à parte. As músicas havaianas estão lá, firmes e emocionantes, e as canções de Elvis Presley voltam com força total, entre elas, claro, “Hound Dog” e “Suspicious Minds“, que embalam momentos decisivos com charme e melancolia. O uso da música como conexão entre Lilo e Stitch permanece, e até se intensifica.
As músicas havaianas são um charme à parte. “He Mele No Lilo” já abre o filme com aquela energia doce e acolhedora. É impossível não se arrepiar. “Hawaiian Roller Coaster Ride” continua sendo um hino da diversão. Colorida, vibrante, com cheiro de mar e vento no rosto. A trilha embala cenas com alma, sem precisar dizer nada.
A direção de Dean Fleischer Camp acerta no tom e no ritmo, mesmo que o filme pareça um pouco acelerado em alguns momentos. Sinceramente? Eu assistiria mais 30 minutos fácil. É um daqueles filmes que você não quer que acabe, e quando acaba, você fica ali, quietinho, sentindo o calor da história que acabou de viver.
O roteiro de Chris K.T. Bright e Mike Van Waes é inteligente, respeitoso com o material original e ousado nas mudanças. Algumas escolhas podem gerar debate entre os fãs mais exigentes, mas é inegável que tudo foi feito com muito carinho e que, ao fim, a mensagem é clara como o céu do Havaí: a família não precisa ser perfeita, ela só precisa estar junta.
Lilo & Stitch (2025) é mais do que uma simples releitura. É uma celebração do que significa encontrar um lar no lugar mais improvável, com as pessoas mais improváveis. É sobre ver no outro aquilo que o mundo inteiro se recusou a enxergar. É sobre pertencer, mesmo quando tudo diz que você não pertence.
E, no fim das contas, é sobre não abandonar. Nunca.
Lilo & Stitch chega aos cinemas no dia 22 de maio.
Esta crítica foi produzida a partir de uma cabine de imprensa a convite da Disney.
